Mãos ao alto por Michael Brown

Centenas de pessoas foram às ruas no dia 9, 10 e 11 em Ferguson protestar pelo aniversário de morte de Michael Brown, alvejado por um policial no estado de Missouri, EUA, no dia 9 de agosto de 2014. Em novembro do ano passado, aconteceram tumultos entre policiais e manifestantes quando o tribunal absolveu Darren Wilson, o policial acusado pelo crime. A revolta não se deu somente à agressão do policial contra o adolescente desarmado que o levou à morte, Michael Brown permaneceu cerca de 4 horas no asfalto antes de receber ajuda médica. Segundo relatos, Brown caminhava da sua casa para a residência da avó, quando foi confundido com o suspeito de um roubo nas redondezas naquele mesmo horário.

A cidade de Ferguson tornou-se um microcosmo emblemático para um dos temas mais importantes da democracia contemporânea – a justiça social e a representatividade étnica. Com uma população majoritária negra e pobre, menos de 4% dos seus representantes são afrodescendentes, o que acarreta situações de impunidade em relação a casos como o de Brown. Os manifestantes do dia 9 de agosto usam slogans “mãos ao alto, não atire” e “vidas negras importam”, instigando o debate sobre o uso desmedido da força policial e o racismo dentro da corporação, tanto no município como no país.

Quando Barack Obama ganhou a presidência dos Estados Unidos, muitos cidadãos norte-americanos comemoraram as possíveis mudanças que estavam por vir, mas o primeiro presidente negro se manteve tímido e moderado ao falar sobre a questão racial. No caso da morte de Michael Brown, Obama enfatizou políticas de porte de arma e foi brando em relação à violência contra a comunidade negra.

No território do tio Sam, prevalece há algumas gerações o que se conhece como política de respeitabilidade, onde a comunidade negra não “deveria possuir” uma identidade própria, ela “teria mais chances” de ser aceita e integrada caso se submetesse ao mainstream anglo-saxão. De acordo com essa filosofia, em momento nenhum fala-se em inclusão de fato, apenas promessas de igualdade, caso os afrodescendentes se submetam a anular os signos da sua ancestralidade cultural, ou seja, a mesma mentalidade colonialista de séculos passados.

Apesar de analistas apontarem um ativismo maior do presidente em fins do segundo mandato, em relação aos primeiros 4 anos, ainda há pouco diálogo com a comunidade negra, apesar da ancestralidade do presidente. Rihanna foi proibida de fazer um show em Ferguson no último fim de semana, um negro é baleado pelas autoridades locais em meio aos conflitos e policiais responsáveis por disparos saem impunes. Em pronunciamento público, Obama discursou sobre a truculência das autoridades municipais de Ferguson, mas nas vias de fato ainda nada foi feito.

Ainda assim, a morte de 1 negro norte-americano é lembrada por todo o país, a Presidência da República toma conhecimento do caso e se manifesta. Já no nosso querido país miscigenado, milhares de Amarildos desaparecem todos os dias, sem ares de novidade. No país do mal-entendido, ninguém sabe, ninguém vê e é como se não fosse.

Em Ferguson, pelo menos já começaram a apontar quais são os culpados dos entraves. Aqui, ainda se vê celebridade branca posando ao lado de segurança negro para demonstrar democracia étnica, ou se preferir, outro mal-entendido.

Deixe uma resposta