Luta de classes na estrada

A greve dos caminhoneiros, que ocorreu no final do mês de fevereiro e teve repercussão até o começo dessa semana, paralisou as rodovias de ao menos 12 estados do país. O aumento do preço do combustível e a baixa remuneração pelo frete foram as principais causas dos bloqueios.

Ao contrário do que parte da mídia afirmou, a greve não foi cooptada por grandes empresas. A maioria dos trabalhadores é autônoma, contratada em época de safra ou para trabalhos específicos. A paralisação foi legítima e fez com que o país percebesse a importância dos caminhões para o abastecimento alimentar. Apesar de na história já terem acontecido greves maiores, como ocorreu em 2002, no governo Fernando Henrique, quando 700 mil caminhoneiros bloquearam estradas, a paralisação atual causou desabastecimentos e fez com que o governo recebesse os líderes do movimento.

O governo federal acatou parte das demandas dos trabalhadores. Foi sancionada a lei dos caminhoneiros; o preço do frete será renegociado por meio de conversas entre empresas contratantes e contratados com mediação do governo; e haverá carência de 12 meses para dívidas de compra de veículos via Banco Nacional de Desenvolvimento (BNDES). Contudo, essas ações talvez não sejam suficientes para impedir que parte dessa classe abandone a profissão. A baixa internacional do preço do grão e a desaceleração da economia podem ofuscar as medidas paliativas realizadas pelo governo.

A mobilização nacional dos caminhoneiros foi mais um protesto diante de diversos que irão ocorrer no Brasil em 2015. A recessão econômica ainda não atingiu a maioria, mas em breve será generalizada. A diretriz governamental é cortar gastos e reajustar tarifas. Às escolhas impopulares se misturam crise hídrica e escândalos de corrupção.

Esse não será um ano fácil para o governo. O fato de os caminhoneiros terem sido recebidos pelo executivo indica preparação para as crises pontuais que a presidência ainda terá que resolver. As altas de preços sensibilizam principalmente os empregados que possuem como única barganha a mão de obra. A arma da classe trabalhadora é o trabalho, resta saber se o governo prosseguirá respondendo com o diálogo.

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