Intolerância afro-religiosa

A agressão a uma criança de apenas 11 anos do candomblé por fanáticos pertencentes a outra religião levantou novamente a discussão sobre a intolerância no Brasil. Apesar de a mídia ressaltar o preconceito religioso, é o ataque à cultura afro que está no cerne da questão. A polêmica sobre as agressões ao candomblé deve passar pelo preconceito racial e pela marginalização da cultura afro-brasileira.

O filme Santo Forte de Eduardo Coutinho é um documentário sobre as diferentes religiões de cada um. Nele, o sincretismo religioso de todo brasileiro parece saltar aos olhos com força ainda maior. Ao conversar com as pessoas mais profundamente, você percebe que a maioria já migrou de uma religião para outra, havendo muitas que frequentam mais de três crenças. A mistura religiosa é a combinação de culturas e é um símbolo do combate à verdade única, que inexiste e leva ao prejulgamento.

Ao longo da história, as religiões afro, em especial, foram marginalizadas juntamente com os negros. A fórmula de formação da sociedade brasileira por meio do apartheid social coloca a pobreza na periferia e todas os outros preconceitos dentro da pobreza, como é o caso da população negra e sua cultura milenar. Não se trata apenas do apedrejamento feito por um fanático louco, mas das diversas pedras simbolicamente jogadas todos os dias contra a cultura afro-brasileira.

Na manhã dessa quinta-feira, dia 18 de junho, o templo Casa do Mago foi apedrejado no Rio. O mago do local afirma que é bastante comum que pessoas de outra religião vão até o templo para converter aqueles que seguem o templo de magia. A tentativa de conversão é um ato de desrespeito a outras crenças.

O que contribui para a intolerância é a falta de entendimento daquilo que é diferente. Nesse caso, as religiões afro são marginalizadas e pouco conhecidas do público em geral. E a questão racial no Brasil está diretamente associada à pouca difusão da cultura afro-brasileira. Acusar as práticas do candomblé de serem demoníacas não está longe dos ataques à população negra como raça inferior. O peso das palavras é forte, mas essa é a realidade brasileira. O respeito ao negro e a importância de sua cultura na formação da sociedade passam longe das salas de aula e dos ensinamentos da família média do Brasil.

Crer ou não é uma escolha de cada um, e repeitar as diferenças é um dever. O sincretismo religioso no país deve ser celebrado como um sinal de tolerância. A realidade de mistura cultural deve ser contemplada e aplaudida. Mas precisamos entendê-la e aceitá-la, e não fugir dela. Não somos brancos, somos uma boa mistura e devemos enaltecê-la. Não foi apenas uma garota do candomblé que foi apedrejada, foi a cultura afro-brasileira.

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