Gullar vai-se embora

Nesse domingo, foi-se embora um grande poeta, o senhor José Ribamar Ferreira, mais conhecido por todos como Ferreira Gullar. O poeta, que também era ensaísta, dramaturgo e crítico literário, deixou-nos às 10h, do último domingo, após 20 dias de internação por complicações pulmonares. Na sexta-feira, ele foi diagnosticado com pneumonia, poucos dias depois de pedir à filha para levá-lo ao mar para ser levado por ele: “Luciana, tudo isso é inútil, me leva para Ipanema”; disse a ela.

Em relação ao medo da morte, em entrevista ao Jornal Rascunho, em 2011, ele disse; “não temo a morte, embora não a deseje”, e com a mesma convicção, lúcida e corajosa, pediu para a família desligar os aparelhos da sua sobrevivência no último domingo.

O autor de Poema sujo, título de um de seus versos mais famosos, foi considerado uma figura controversa. Participou do Partido Comunista em plena ditadura militar, sofreu perseguição política e exílio, mas nunca poupou críticas a regimes de esquerda, principalmente nos últimos anos de vida. Em entrevista dada à Veja, Gullar comenta sobre sua desilusão com o sistema comunista, porém afirma: “eu de direita? Era só o que me faltava”, e acrescenta: “pensar isso sobre mim, não é honesto”.

Também chamou a atenção a entrada do escritor para a Academia Brasileira de Letras (ABL) depois de várias rejeições e críticas aos cadeirantes, foi um homem que se transformou ao longo da vida mudando posicionamentos e urgências. Porém nunca deixou  a necessidade da escrita de lado, enquanto internado nos últimos dias, ele chegou a produzir dois ensaios.

Falecer, no caso de Ferreira Gullar, não significa deixar de existir, como ele bem já havia nos avisado: “sei que um dia não estarei mais em nenhuma parte, senão no que escrevi”. E acrescenta, como se citasse seu próprio obituário: “a obra é o outro corpo que criamos para permanecermos presentes quando este, de carne e ossos, desaparecer”.

Temos a impressão de que a grandeza de alguns pode perpetuar a máquina fisiológica, uma doce ilusão, ainda pela idade avançava, fomos todos pegos de surpresa com a a partida repentina do poeta. Por falar em ilusões, por que não imaginamos ele, agora, em Ipanema, como ele desejava há pouco, em uma infinita manhã de sol? Ele rasurando poemas ou polêmicas, tanto faz, lê-lo sempre foi um prazer, inclusive para discordar dele.

Ao mestre, o desejo do merecido descanso e nossa enorme saudade.

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