Guerrilha no Paraguai

A soltura de Arlan Fick, de 16 anos, filho do produtor rural brasileiro, Alcido Fick, colocou na mídia um assunto antes pouco comentado – as guerrilhas rurais do Paraguai. Arlan Fick é mais uma vítima de sequestro do Exército do Povo Paraguai (EPP), grupo guerrilheiro que luta pela posse de terra no país vizinho. O grupo atua na Tríplice Fronteira e iniciou suas atividades no início de 2000.

Pouco se sabe sobre o EPP, que afirma ser um grupo marxista e exalta a figura de Solano López, além de possuir táticas de guerrilha. A alta concentração de terras no Paraguai, onde 80% das terras estão nas mãos de 2% da população, é a principal causa do surgimento de grupos rurais que reivindicam melhores condições sociais.

A Guerrilha no Paraguai parece seguir os mesmos caminhos da FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia). O EPP surge das guerrilhas armadas contra a ditadura de Alfredo Stroessner, que governou o Paraguai até 1989, mas torna-se um movimento a parte no início dos anos 2000. Sem dinheiro para se sustentarem, as guerrilhas buscam recursos na ilegalidade, como a produção e o tráfico de drogas. Também é usual o sequestro de pessoas e o roubo a bancos, nesse último caso, reafirmando o viés político da resistência armada.

Em vídeo, o grupo esclarece seus objetivos, em que afirma lutar em nome da igualdade e do fim das oligarquias paraguaias. A tática de guerrilha não é novidade na história das guerras, tendo surgido mais fortemente em conflitos pela independência desde o século XVIII. As guerrilhas formam-se no meio rural e caracterizam-se pela luta armada. Surgem quando o governo nacional está deslegitimado pela população, por isso trata-se de um exército popular. Exemplos podem ser encontrados na independência dos EUA, no século XVIII, na independência da Argélia, 1962, e na famosa Revolução Cubana, que derrubou Fulgêncio Batista do poder em 1959.

A justificativa para os atos cometidos é a necessidade de igualdade social. Pedem por terras e condições sociais igualitárias e acreditam na revolução armada como meio de mudança. A linha entre a revolução e o crime torna-se tênue quando existe pouca informação sobre a guerrilha, além de sequestros de pessoas que não representam uma liderança, como é o caso de Arlan, em ações que retira a legitimidade da tática de guerrilha e dão respaldo para grupos conservadores classificarem o grupo como criminoso.

A política e os governos paraguaios contribuíram para a forte concentração de riqueza do país, e resta descobrir qual a melhor maneira de lidar com guerrilhas de esquerda que afirmam trabalhar em prol da população explorada do Paraguai. O tratamento não deve ser o mesmo que aquele dado a criminosos comuns, que buscam enriquecer individualmente. Comparações com o PCC (Primeiro Comando da Capital) são erradas, já que esta se define como facção criminosa e possui objetivos desvinculados das guerrilhas sociais de cunho socialista.

O Paraguai possui um desafio maior que o de acabar com as guerrilhas, que é o de realizar a reforma agrária, aumentar os índices educacionais, e melhorar as condições sociais dos cidadãos. A melhor maneira de combater as ações de guerrilha é responder ao pedido dos guerrilheiros, que se trata primeiramente de obter melhorias sociais em um país altamente desigual. Essa é a maneira de retirar a legitimidade do grupo armado: retirar o motivo de sua existência.  Infelizmente, os governantes acreditam ser menos complexo declarar guerra a um grupo armado do que mexer com as estruturas de poder do país.

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