Gaza dois irmãos

Mais de 180 crianças já foram mortas em Gaza desde que os ataques de Israel tiveram início. Os mortos ultrapassam 650 pessoas. Independente dos números de cada lado, a morte de civis por armas de fogo não é justificável, e computá-las não serve para medir o tamanho do conflito em cada lado da guerra.

Israel foi fundada em 1948 em um local onde coabitavam árabes e judeus. A primeira guerra entre árabes e israelenses aconteceria naquele mesmo ano. A geografia territorial da região, que antes da 1a Guerra Mundial pertencia ao Império Turco-Otomano, foi originária da partilha entre os vencedores de 1918. O Acordo de Sykes-Picot, de 1916, dividiu a região em áreas de influência inglesa e francesa antes mesmo do término da guerra.

O estado de Israel era anseio do movimento sionista, que surgiu no fim do século XIX, portanto muito antes de 1948. Os judeus ocidentais, alguns donos dos maiores impérios bancários, como os Rothschild, exerciam forte influência no governo britânico. Além de terem amigos igualmente influentes nos Estados Unidos. A Declaração de Balfour foi feita em 1917. Nela, o secretário britânico de assuntos estrangeiros, Arthur Balfour, afirmava sua intenção em facilitar um lar judeu na Palestina, caso a Inglaterra ganhasse a guerra. A carta era endereçada ao lorde Rothschild, para ser repassada para a Federação Sionista da Grã-Bretanha. Ao contrário do que alguns defendem, o estado de Israel, muito provavelmente, existiria mesmo se não houvesse o holocausto.

A geografia atual de Israel deveu-se a conflitos e assentamentos. A desequilíbrio de poder econômico entre o estado judeu e os países ao redor é visível – Israel tem a seu lado o Ocidente. O ódio entre os povos de um lado e de outro, após tantas guerras, foi crescendo. Os palestinos, além de perderem terras, sofrem restrições e preconceito por parte do governo de Israel. A pobreza de um estado recém criado e as divergências entre o Fatah e o grupo Hamas não contribuem para a fortificação do estado e para a proteção dos civis dentro de suas fronteiras. E Gaza, uma faixa de terra sem saída, é a que mais sofre as conseqüências do conflito.

A desigualdade entre Palestina, um estado dividido ao meio pelo expansionismo israelense, e Israel é grande. Crianças nascem em meio à rivalidade e muitos se tornam futuros adultos prontos para lutar contra uma cultura. No documentário 5 Broken Cameras, de 2011, o camponês palestino Emad Burnat tem apenas uma coisa a dizer sobre seu filho de 4 anos: “A única proteção que eu posso oferecer a ele é permitir que ele veja a realidade com seus próprios olhos, para que ele possa entender quão vulnerável é a vida”.

A história da Palestina ou de Israel exposta aqui não explica o conflito que ainda persiste. São justificativas para mortes injustificáveis, porque a morte de civis por qualquer exército deveria ser considerada crime de guerra, especialmente se o motivo do bombardeio for destruir passagens de contrabando, e não enfrentar um perigo eminente para a população israelense.

Não há estudos que expliquem a situação que ainda persiste em Gaza. Há dois países que precisam sentar e se aceitar como nações que coabitarão como irmãos a mesma região, lado a lado. A culpa pelo conflito é de todos os envolvidos. E mais uma vez, no desenrolar dos jogos de poder mundial, inocentes são mortos.

E se há esperança? Sempre há. Nas palavras do moçambicano Mia Couto: “Depois da guerra, pensava eu, restavam apenas cinzas, destroços sem íntimos. Tudo pesando, definitivo e sem reparo. Hoje sei que não é verdade. Onde restou o homem sobreviveu semente, sonho a engravidar o tempo. Esse sonho se ocultou no mais inacessível de nós, lá onde a violência não podia golpear, lá onde a barbárie não tinha acesso. Em todo esse tempo, a terra guardou, inteiras, as suas vozes”. Seria exatamente isso que eu diria a Emad Burnat se um dia o encontrasse.

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