Futebol

O futebol é o esporte do brasileiro por excelência. Futebol arte como muitos afirmam. O esporte no Brasil é jogado por todos. Basta apenas uma bola, não poucas vezes, murcha, e a rua. A trave do gol pode ser feita de simples pares de chinelos, ou de qualquer tijolo encontrado por aí. A brincadeira do menino é driblar, dar chapéu e se imaginar astro no Maracanã, com toda aquela gente aplaudindo e gritando. Ali, naquele pedaço de chão, o pequeno é rei, e ninguém pode roubar-lhe esse sentimento.
Desde a Copa do Mundo de 1958, o futebol no Brasil começa a mudar. Disputada a final com a Suécia, o Brasil foi, pela primeira vez, campeão mundial. Ao final do jogo, após cinco gols da seleção brasileira, todo o estádio arrebenta em aplausos, do lado brasileiro e sueco. Essa era a seleção de Pelé, Garrincha, Nilton Santos, Zagallo, Zito, Vavá e Mazzola, entre outros. A partir daí, os olhos do mundo se voltam para o futebol arte, e clubes internacionais começam a comprar os jogadores brasileiros a preços astronômicos.
Futebol torna-se também uma maneira de ascensão social. É a oportunidade do menino do morro ser uma estrela e se safar dali. O esporte aqui é jogado sem a mecânica matemática europeia. Futebol no Brasil é a perna torta de Garrincha. É a bicicleta de Pelé. Jogo que reflete a cultura do brasileiro, acostumado, não a ser malandro, mas a dar dribles na vida.

FIFA

A Copa do Mundo vai ser no Brasil, e a nação apaixonada pelo futebol não está contente. A empresa FIFA representa um padrão mercadológico que não conversa com o brasileiro. Esse padrão é tudo aquilo que o escritor Nelson Rodrigues, fanático cronista de futebol, detestava. Quando os grandes clubes começaram a comprar os jogadores brasileiros, após a Copa de 1958, para jogarem lá fora, Nelson Rodrigues foi o primeiro a dizer que isso estragaria o futebol daqui.
O anjo pornográfico dizia que era aqui que se via arte, e que os clubes nacionais não deveriam perder os escretes brasileiros. Dizia: “os campeões do mundo deviam ser incompráveis”. Era o início da empresa futebolística. A mesma que a FIFA esnoba na cara do brasileiro hoje.
E o povo aqui não quer ser padrão FIFA. Esse padrão significa perfeição planejada que nunca se aplicará aqui. O jogo deles não é arte, sonho e possibilidades, é sim um quadrado falsamente perfeito, que tentam vender por aí. E chegam aqui fazendo comparações e dizendo ao povo o que é certo e errado.
O futebol é o jogo do Brasil, porque dele, qualquer um pode ser parte. O padrão FIFA pede estádios e aeroportos. O brasileiro quer escola e educação, porque futebol se faz na rua. E é para a rua que o povo irá na Copa, seja pra torcer ou brigar, porque é lá que será decidido o fim dessa partida.
“Eu vou dizer o momento exato em que se inaugurou o verdadeiro Brasil. Foi após o hino nacional brasileiro. Os jogadores ainda estavam perfilados e trêmulos. A Rússia seria uma prova crucial. Mais do que nunca dava em que cada jogador o dilema – Ser uma besta ou não ser uma besta? E, então, soou, naquele escrete contraído, a voz de Garrincha. Com a sua candura triunfal, dizia o Mané para o Nilton Santos – Aquele bandeirinha tem a cara do ‘seu’ Carlito!. Houve, então, o riso incoercível, total. Foi o bastante. O escrete tornou-se de uma nova e feroz potencialidade. E da piada de Garrincha partiu para a vitória.
Ali, começava o verdadeiro Brasil. Ninguém sabe, mas foi uma piada que derrotou a grande, a colossal, a imbatível Rússia. A mesma piada deu ao brasileiro a sensação da própria grandeza. Com um quase pânico, o homem do Brasil percebeu que era genial”. Nelson Rodrigues, 1962, Jornal dos Sports.

Deixe uma resposta