Foi brincando que eu caí em mim

“Atracamos aqui! A distância até a praia é de 200 metros, quem souber nadar, pode pular do barco!” – anunciava o homem da escuna no verão de 1992. Apertei bem a mão para que o meu mais novo tesouro, um punhado de conchinhas, não voltasse ao mar e pulei. Bati as pernas e empurrei a água num estilo de natação exclusivo de quem aprendeu a nadar com o pai (que também aprendeu com o pai), transformando-me em uma sereiazinha até enfim chegar à areia. Só então reparei nos gritos histéricos de minha mãe ainda a bordo, e a presença de dois marinheiros esbaforidos avisando-me da bronca que eu estava prestes a ouvir. Naquela ocasião, eu tinha 4 anos de idade e minha mãe, uma nova gastrite nervosa.

Hoje, nos meus 26, tenho medo de água e se me perguntarem direi que não sei nadar. Não guardo trauma daquele dia, porém alguma coisa, com o passar do tempo, perdeu-se.

E é justamente o extravio do que éramos que prejudica a vida adulta e, ainda pior, a vida adulta de certos pais. Sinto que as crianças de hoje estão sendo sistematicamente preparadas para a maturidade, ao invés de estarem fazendo o que crianças fazem: brincam. Não me refiro às famílias de baixa renda que colocam os filhos no trabalho para eles contribuírem com o orçamento da casa. Falo daqueles que têm a melhor condição de proporcionar uma infância plena aos seus e escolhem cansá-los no balé, na natação, na escola de inglês, no reforço de matemática, na correção postural, no francês, etc, etc. Crianças desde cedo sendo domesticadas para prosseguir com o bom funcionamento da máquina, que não é bem o desejo de ninguém; no entanto, valha-me deus ficar de fora!

Estamos deixando de encarar a brincadeira e o ócio como atividades da mais alta importância, tanto para nós quanto para a molecada. O devaneio do não fazer nada anda proibido no cotidiano das nossas crianças e há muito foi extinto na vida das pessoas “de bem”.

É verdade que não penso em me transformar numa sereia quando entro na água como antigamente, deixei para lá o desejo de ser uma criatura marinha. Mas aquela coisa de acreditar em uma transformação, isso ficou; e é importante perceber que quem me ensinou a capacidade de mudança foi aquela menininha que fui.

Uma sociedade formada por crianças ocupadas e eficientes não traz lá um bom presságio para os novos tempos, antes pudéssemos ouvir mais as crianças que fomos.

Seria feito um “sentar em si”. Quem sabe dessa forma, ficaríamos mais firmes ao chão. Engraçado isso, essa contradição de ter que reaprender a viajar nas nuvens para tornar-se um homem mais aconchegado dentro da vida; porém, ao que tudo indica, o caminho é mesmo esse.

Texto inspirado no documentário – Tarja Branca, a revolução que faltava.

Uma resposta para “Foi brincando que eu caí em mim”

  1. eugen disse:

    Gostei, Flavia, bem madura essa sua crônica.

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