Es lässt sich nicht lessen

Está em cartaz nesse mês de agosto o filme O homem das multidões, de Cao Guimarães e Marcelo Gomes. Inventivo e atemporal, a obra trabalha com o inesgotável tema da solidão: um solitário vai de encontro a outro também solitário, e o desafio do espectador é perceber o discreto decodificar sentimental entre dois tipos diferentes de timidez, em uma sociedade agressivamente exibicionista.

Inspirado no conto de Edgar Allan Poe, de mesmo título, o filme insinua um comportamento semelhante ao do personagem literário: um homem errante na multidão da cidade, rotulado com a expressão alemã es lässt sich nicht lessen – aquele que não se deixa ler; porém, com uma pequena diferença, o protagonista do conto não se abala com sua condição, suas vontades são indecifráveis e o narrador observador acaba desistindo da ideia de compreendê-lo. Já os personagens do filme adaptado, Juvenal e Margô, transparecem certa dificuldade com a própria natureza.

Juvenal é um homem imerso na multidão da cidade de Belo Horizonte, morador do centro, primeiro andar de um prédio comercial, trabalha como maquinista da linha metroviária da cidade e é rodeado, boa parte do dia, por centenas de desconhecidos. Encontrou na conversa de estranhos sua forma de divertimento. Reserva sua voz para si em monólogos noturnos, para os outros, oferece um olhar esquivo de quem prefere não estar tendo aquela ou qualquer tipo de conversa.

Margô trabalha na mesma empresa de Juvenal, como monitora das câmeras de vigilância. Vive com o pai de idade e desenvolveu com ele uma rotina silenciosa. Conserva um imobilizador de pulso no braço direito e aplaca a falta de convívio humano através de salas de bate-papo.

Juvenal não fala de si, gosta de lugares completamente abarrotados de gente onde pode anular-se entre os passantes. Margô prefere a reclusão e passa boa parte do dia a observar as pessoas por meio de um monitor. Ele é o homem ilegível de Poe, e ela, a observadora fascinada com aquela natureza indecifrável.

Um belo retrato do que pode acontecer quando dois silêncios se encontram e, ainda mais ingrato, do que pode não acontecer.

Obs. 1: esteja bem disposto quando for assistir a esse filme.

Obs. 2: esteja bem disposto e, se possível, tome um expresso duplo antes de assistir a esse filme – a verdade seja dita.

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