Ensaio sobre a seca

São Paulo está prestes a sofrer a maior crise hídrica de sua história, e a população prepara-se com base em especulações. O governo estadual e o federal não deram qualquer declaração sobre os planos desenvolvidos para solucionar a falta de água no estado. A maior cidade da América pode estar prestes a parar, e a população apenas aguarda por esse momento.

A conversa em qualquer corredor é a mesma: água. Há estocagem de água potável e falta de bombonas para a construção de cisternas, que captam a água da chuva. As torneiras de parte de São Paulo já deixaram de funcionar. A zona leste, que sempre sofreu com a falta de água, recebe antes a má notícia, e bairros centrais começam a entender o dia-a-dia de parte de outros brasileiros, daqueles que vivem na periferia.

A crise atual de água não é passageira. Desde a década de 1990, há sinalização para que São Paulo reduza sua dependência do sistema Cantareira, mas nada foi feito. As obras para usar água do Vale do Ribeira ficarão prontas apenas em 2018. Até o momento não se sabe quais são os planos de emergência do governo para a população, nem se ele existe. Em março, inicia-se o período de estiagem, e o resultado das chuvas de verão foi falta d’água. A tendência é que a captação de água pelos reservatórios piore ainda mais.

A culpa não é apenas do governo estadual, é também do federal. A Agência Nacional de Água (ANA) foi a responsável por conceder a exploração do volume morto da Cantareira, que a tornou quase irrecuperável. Contudo, Alckmin, o governador do estado de São Paulo, possui o agravante de omitir a crise por motivos eleitorais e, por estar no governo há anos, não tem nem ao menos outra legislatura passada a qual se possa terceirizar a culpa.

A crise que estamos prestes a enfrentar em alguns dias, mesmo quando revertida, não deve nos deixar esquecer a importância da água e de todos os recursos naturais. Esses recursos devem ser preservados, porque são vitais para nossa sobrevivência. Não se trata isoladamente de meio ambiente, mas de direitos humanos. A questão da água e de seu uso irresponsável é parte do suicídio coletivo que a humanidade realiza há séculos.

A culpa pela falta de água é de todos. O governo deve ser especialmente responsabilizado, mas não devemos, com isso, esquecer nossas responsabilidades como cidadãos. O consumo desenfreado representado pela cidade de São Paulo receberá em alguns meses a recompensa adequada.

Os paulistas aguardam o pior e tentam se mobilizar da maneira que entendem ser a correta. Não há qualquer informação. A população nunca se sentiu amparada pelo governo, mas nunca havia se encontrado tão solitária e à mercê de sua própria mobilização. São em momentos como esses que são feitas as maiores revoluções.

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