Eles não sabem o que fazem

Sobre o Brasil ser um país conservador, isso não é novidade para ninguém. Ficou muito claro nas últimas eleições, a polarização ideológica, por vezes irracional e agressiva, que ambos os lados tomaram na disputa e que se reverbera em passeatas contra a decisão eleitoral democrática em quase todos os fins de semana no vão do Masp e nas principais vias em todo o Brasil.

É como se a minoria privilegiada que sempre esteve em situação confortável perante as estruturas do poder estivessem sentindo a vertigem dos abalos das grandes reviravoltas e resolveram tocar o alarme, porém me custa enxergar de onde surgem essas elucubrações da direita. Como pode as classes privilegiadas se vitimarem com tamanha convicção, com a certeza absoluta de que estão sendo reprimidas?

Essa semana, tivemos o desgosto de ouvir a repercussão negativa da instalação da ciclofaixa em bairros nobres com argumentos que vão do individualista “onde meus convidados irão estacionar o carro nas minhas festas?” até o grave “quem anda de bicicleta é gente desqualificada”! O argumento é que as bicicletas incentivam a mobilidade e por isso deixam a população nobre mais exposta à presença dos menos favorecidos.

Uma enxurrada de ações judiciais tentam refrear e/ou desativar os caminhos de bicicletas já demarcados. Usam o argumento de que a iniciativa fere o direito de propriedade e de que uma consulta prévia, coletiva, deveria ter sido feita no bairro antes das mudanças. É ironicamente pensando no “coletivo” que o cidadão teletubbie, sai às ruas, veja bem, às ruas, um lugar de “gente desqualificada”, reivindicar sua indignação.

Eu adoraria entender de que maneira a redução da desigualdade social, mesmo que de forma apenas física e quase microscópica, no caso das ciclofaixas, aumenta os índices de violência. Mas eu não entendo, gostaria muito de saber de onde, na verdade, é que saiu tal ideia.

Até onde se sabe, são justamente os abismos culturais, financeiros e físicos que criam a periculosidade do cenário onde vivemos. Mas a elite insiste em pensar o contrário, o que chega a me causar uma pena, porque não é que sejam cínicos. Eles simplesmente não sabem o fazem.

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