Eleições – vergonha brasileira

As eleições de 2014 ainda não terminaram, pois ainda há segundo turno para governador de alguns estados e para a presidência da república. Porém, a julgar pelos eleitos para o legislativo, a sociedade brasileira ainda escolhe o preconceito, a brincadeira e a elite conservadora como representante. Enfim, o voto no Brasil vai para a despolitização.

Historicamente, o país teve poucos momentos de democracia, e os direitos sociais foram conquistados por meio de decretos presidenciais, e não por mecanismos de participação da sociedade civil. Essa herança histórica tornou a política e as eleições centradas no executivo. No livro Cidadania no Brasil, de José Murilo de Carvalho, o historiador afirma que “se os direitos sociais foram implantados em períodos ditatoriais, em que o legislativo ou estava fechado ou era apenas decorativo, cria-se a imagem… da centralidade do executivo”. Dessa forma, o legislativo, instância mais importante do sistema político, de onde nascem projetos de lei e aprovam-se normas que mudam direitos e deveres, é relegado pelo eleitor.

Os deputados federais mais votados na semana passada foram Celso Russomano, Tiririca, Jair Bolsonaro e Pastor Marco Feliciano. Russomano é apresentador de programa televisivo da Record; Tiririca é palhaço e humorista; Bolsonaro é militar; e Marco Feliciano, como a própria candidatura já anuncia, é pastor ligado à Assembleia de Deus. Profissões que, de fato, parecem refletir a sociedade brasileira conservadora. Bolsonaro e o pastor Feliciano já estiveram envolvidos em inúmeras cenas preconceituosas contra direitos homossexuais, de mulheres, de minorias, entre outros absurdos, que deveriam ser motivo de perda de mandato. E Tiririca propôs vários projetos de lei, mais de 95% relacionados a atividades circenses.

A citação desses deputados federais serve apenas para ilustrar a gravidade da despolitização do eleitorado brasileiro ou, ainda, para mostrar quem representa a população que aparentemente deve ser composta de palhaços interessados em atividades de picadeiro. Candidatos religiosos não são problema algum, mas homofobia e discriminação são, e eleger representantes que carregam bandeiras criminosas revela a educação medieval do eleitorado, além de mostrar que a impunidade contra os crimes causados contra mulheres, homossexuais e minorias estão refletidos no Congresso nacional.

Os votos do legislativo podem ser considerados desconhecimento e distância da população em relação a esse órgão e seu funcionamento, mas o conservadorismo prossegue em escolhas executivas, em que famílias políticas dominam currais eleitorais, sustentados não apenas por compra de votos, mas também por fidelidade partidária. É tênue a linha da alienação causada pelo sistema e a promovida pelo próprio homem, que não deseja entender, e prossegue com os mesmos discursos proferidos em outras gerações.

Outubro não significou mudança como os que encheram as ruas acreditavam, mas continuísmos. As urnas refletem o elitismo, a brincadeira e o preconceito, e mostrou que a sociedade brasileira está doente. Pouco se sabe de política, e pouco se fala dela. A invasão das ruas deve se expandir para o Congresso e Assembleias Legislativas, e o povo deve ser fiscalizador constante das atividades dos governantes, mas isso, infelizmente, ainda não é realidade. Nesse caso, políticas circenses parecem uma boa saída para o eleitorado brasileiro. Talvez Tiririca não tenha sido tão má opção.

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