E fizeram de nós mulheres

“A pessoa não nasce mulher, mas antes, torna-se mulher”. Com essa frase, o feminismo é consagrado na literatura da filósofa Simone de Beuvoir. Para ela, a mulher é construção da sociedade, que se encarrega não apenas de criar o gênero, como também de inseri-lo como objeto.  As funções da mulher, nesse caso, resumem-se a atuar conforme regras sociais. O conceito de Simone pode facilmente ser analisado na sociedade pós-contemporânea, a qual ainda é dominada pelo machismo tanto de homens como mulheres.

O sexo feminino ainda comporta-se como subalterno ao homem em todos os ambientes sociais. As críticas a esse gênero, quando há fuga das funções pré-estabelecidas, são mais severas. Isso sem mencionar questões como a violência doméstica, que ainda é comum em todas as classes sociais no Brasil e no mundo. O comentário corrente: “Essa é para casar…” resume em poucas palavras um conceito histórico sobre a mulher: a visão da esposa subalterna e obediente, uma espécie domesticada.

As consequencias da criação da mulher como continuísmo masculino são prejudiciais para a sociedade, no momento em que casamentos são feitos e mantidos com base no sofrimento geracional, por obrigações circunstanciais. Nesse caso, a sociedade machista impede a liberdade do ser humano ao limitá-lo a funções pré-concebidas desde o início da vida. A mulher, como subalterna, restringe-se a comportamentos aceitáveis e é julgada pela maneira que exerce suas responsabilidades de gênero.

No romance “A mulher Desiludida”, Simone retrata as desilusões de mulheres que nem ao menos percebem a condição submissa em que se encontram, tão bem exercem esse papel.  O único ruído que demonstram é a neurose psíquica que desenvolvem ao romper um casamento ou ao ver a casa vazia sem os filhos. A espera pelo casamento e a família resumem a vida de mulheres que se dedicaram àquilo que lhes é imposto socialmente desde a infância. Na falta da instituição familiar, resta-lhes o vazio e a angústia.

E a falta de feminismo e o desentendimento sobre o tema não é culpa de homens, é também de mulheres, que apoiam e se resignam a cumprir tarefas alienantes. O machismo é de toda a sociedade. O existencialismo de Simone ressalta o conflito do ser humano e sua função imposta. A realidade é que toda mulher nasce sabendo o que se espera dela. Muitas assumem o papel, acreditando na própria atuação. Outras vivem diariamente o incômodo de ocupar um personagem que não a representa, presa num conceito pré-concebido de mulher.

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