Deles por eles

Testemunhas no dia 26 de março de 1986 ouviram da polícia: “puta prum lado e viado pro outro. Tô falando branco pra fora e preto aqui dentro, branco sai, preto fica!” A confusão foi no Quarentão, baile black frequentado pelos moradores da Ceilândia, cidade satélite de Brasília, onde a maioria é negra, imigrante e pobre; e portanto, alvo da PM há sabe-se lá quanto tempo.

A invasão policial não foi nem a primeira e nem a última do Quarentão, mesmo assim o dia 26 de março tornou-se infelizmente inesquecível na comunidade, e por essa razão o baile dá nome ao filme Branco sai, preto fica de Adirley Queirós.

Naquela noite, atingiram as costas do ator Marquim do Tropa, o personagem Dj Marquim, deixando-o preso a uma cadeira de rodas, esclarecendo a ordem “branco sai, preto fica”. Já o ator Shokito, interpretando Sartana, perdeu a perna ao ser mal assistido em um hospital público. A amputação não teve relação com o evento do dia 26, mas, de qualquer forma, as situações de Shokito e Dj Marquim são exemplos do descaso com a população carente, seja pelo uso da força armada ou não. Os personagens e moradores verídicos da Ceilândia servem de certa forma para exemplificá-la.

Uma comunidade nascida pela expulsão de 100 mil moradores de Brasília em menos de 15 dias em uma ação para erradicar as favelas do plano piloto, pessoas descartadas como um pedaço de sucata ou pé doente, deixando a cidade amputada de todas as suas possíveis representações, feito Marquim e Shokito, também refreados por um sistema social segregador.

O acontecimento em 86 serve de causa para o desenrolar da ação narrativa, evidenciando as consequências do preconceito sobre a integridade dos atores-personagens e desencadeando uma resposta da periferia contra um sistema que segrega e esconde. O filme resgata um acontecimento verídico do passado e o mescla com uma sociedade futurista dominada pela bancada conservadora cristã. Daí as classificações documentário ficcional ou ficção documental dadas à obra.

A ideia dos protagonistas é criar um dispositivo capaz de levar ao centro de Brasília a mistura de todas as manifestações musicais periféricas, uma espécie de bomba cultural, para que a periferia seja reconhecida e talvez integrada ao todo. Enquanto isso, um agente especial do futuro é enviado ao presente para reunir provas da violência policial no dia 26 de março contra a população negra, mas não se sente motivado em completar a missão, ele não deseja voltar para o seu tempo. Ironia fina sobre os rumos dos direitos das minorias no Brasil.

Queirós também reproduz um cenário com passaportes e trincheiras entre a periferia e a região central da cidade. Cria-se um ambiente de guerrilha urbana entre cidadãos pobres e a força do Estado, algo muito semelhante, porém em menor escala, com a realidade atual. Outro aspecto brilhante da produção é a engenhosidade em construir um ambiente de ficção científica com quase nenhum efeito especial, há uma estética de sucata, de improviso, de quem faz a sua arte mesmo com poucos recursos financeiros ou quase nenhum.

Quando Adirley Queirós procurou Marquim do Tropa para o documentário, o ator disse ao diretor: “Como assim mais um documentário de preto fodido? Isso o povo tá cansado de ver, eu sou preto fodido todo o dia”. E questiona: “você não faz cinema? Então me coloca voando, fazendo bomba… Quero sair dessa mesmice de preto pobre”. Sendo assim, Queirós reformulou o roteiro e produziu uma obra para a transgressão, seja do cinema sem grandes financiamentos ou da maneira de representar o oprimido.

Vitorioso ao formular uma realidade preconceituosa, Branco sai, preto fica é uma produção audiovisual feita por seus moradores e para os seus moradores. Um cinema criado não pela interpretação do sujeito branco e ilustrado, e sim pela comunidade em si, conhecedora das suas limitações diárias. É a linguagem da periferia competindo com o cinema social feito até então por quem nunca foi de fato excluído.

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