De repente muda

“A única coisa que não envelhece no rosto são os olhos. Têm o mesmo brilho no dia em que nascemos e no dia em que morremos”, reflete Knausgard em seu livro auto-biográfico A morte do pai. Todo o resto muda, nossa face, nossas relações, nossas formas de manifestar aqueles velhos interesses. De súbito, após uma certa idade, somos tomados pelo sentimento de que tudo mudou, porque nada mudou, e devemos continuar sozinhos. 

O sentimento de estar acompanhado é nutrido desde o nascimento, seguido da infância em que nossas pernas se apoiam nas dos mais velhos. Queremos estar acompanhados de ramificações nossas jamais encontradas. Crescemos buscando a independência de nossos jovens pais que cada vez mais se tornam avós com idade de bisavós, ou conhecem apenas os filhos que envelhecem.

Os bens e oportunidades de outrora não são adquiridos com a mesma facilidade de uma sociedade que busca igualdade de oportunidades, apesar de estar longe dela. Toda escolha de um adulto é permeada pelo consumo e pelas limitações financeiras, fazendo a vida em si caber dentro de um apartamento de 65 metros quadrados com banhos de sol no asfalto malufista.

E os sonhos tornam-se anuviados em nossas vistas que se cansam e se acomodam. Tudo se tornou uma grande indústria publicitária, em que o cartão de visitas conta mais que o próprio fazer.

De repente, o mundo envelheceu, e a gente, junto com ele, não consegue explicar o quê. Seguimos sozinhos e apertados em nossas escolhas consumistas. A guerrilha é online, a luta fala suave e baixo, e estamos todos nas mão de pessoas que se julgam políticos, ativistas, promotores da sustentabilidade e da democracia, combatentes da corrupção, disruptivos, e todo mote de palavras bonitas, ditas e não feitas incansavelmente.

E a gente logo vira jovem velho, que luta por uma mudança que o mundo não quer, mas a gente, quase sozinho, tenta fazer. A gente muda, e segue, tentando buscar uma penca de amigos para fazer os dias diferentes, para ver se aguenta esperar pelo milagre que não vem.

Mas esse milagre um dia ainda vai mudar o mundo, e os olhos de quem nasceu na mesmice o verá com os mesmos brilhos. E ao redor dele estarão todas as almas invisíveis que sofrem esperando a explicação das palavras que vocês tanto gostam.

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