Conhecendo Liniers

Eu moro em um apartamento de esquina no oitavo andar. A melhor paisagem, se é que eu posso dizer que temos isso aqui em casa, é a da rua vista das janelas dos quartos. Apesar disso, a minha janela favorita fica confinada no cantinho da cozinha, de lá se vê um remendo de lajes do quarteirão vizinho em um mosaico cinza e triste, também há uma parede creme com uma varanda todos os dias fechada dando para o que pode ser o fundo de uma casa. Aquela sacada, ali, disposta ao nada para lugar nenhum sempre me remete ao Mistério, aquele carinha sinistro dos quadrinhos do Liniers. E, portanto, a minha janela favorita não seria a predileta se não fosse a leitura macanudista que eu dou a ela. Eu vejo um tipo suspeito de capa, cartola e nariz de cenoura em sacadas sempre fechadas, e o que seria só mais uma imagem vazia transforma-se em qualquer coisa maior.

Liniers é o segundo nome de Ricardo Siri. Um cartunista argentino que começou a desenhar desde a adolescência porque não sabia jogar muito bem futebol e na Argentina isso é um grande problema. Ele costuma dizer também que desenhar é excelente para disfarçar desatenção em aulas de matemática, que toda a vida detestou. Em entrevista ao programa Sangue Latino, comenta sobre a angústia do 1+1, de como um resultado sempre o mesmo não se encaixa na sua visão de mundo, muito particular, diga-se de passagem.

Desde 2011, a tirinha Macanudo é publicada no jornal argentino La Nación. O cartunista acumula 20 livros publicados na Espanha, nos Estados Unidos, na Itália, na República Tcheca, na pe-que-pê e, no Brasil, as publicações são pela editora Zarabatana. Inclusive os seus cadernos de anotações foram compilados em historietas de viagem. Um fato curioso: Liniers faz anotações em forma de quadrinhos. E apesar de usar outros tipos de materiais, tem uma preferência por nanquim e aquarela.

O personagem Mistério é um dos quase vinte desenhos que Liniers usa para esboçar a sua criatividade. Também há o robô sentimental, o ursinho de pelúcia, o gato, a menina leitora, as ovelhas, os pinguins, monstro imaginário, o próprio cartunista que é um coelho e tantos outros bichinhos. O interessante é a maneira atenciosa e sensível que ele interpreta e representa a realidade cotidiana por meio de criaturas tão adoráveis.

Também produziu a capa dos discos de artistas como Kevin Johansen, um grande amigo do cartunista e Andres Calamaro. Johansen e Liniers fazem apresentações juntos onde misturam o show musical com a produção de murais e charges inéditas, um pouquinho aos moldes do programa Roda Viva da TV Cultura.

Para quem não o conhece, seus trabalhos estão em exibição no Centro Cultural Correios até o dia 1 de setembro.

Depois de conhecê-lo, uma azeitona recheada de pimentão ou uma janela sem graça nunca mais serão as mesmas, eu garanto.

Onde:

Centro Cultural Correios São Paulo, Av. São João, s/nº, Vale do Anhangabaú, São Paulo.

Visitação: de 4 de julho a 1 de setembro de 2015.

Terça a domingo, das 11h às 17h Sábados e domingos, às 15h.

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