Confissões de um reticente

Eu sempre me senti deslocada por uma série de motivos, e nem se houvesse disposição dos nervos, eu poderia explicar de maneira coerente. Em meio a tantas solidões, há duas, que com algum sofrimento, talvez eu dê conta de confessar aos senhores quais são e de onde vêm. A primeira diz respeito a essa minha predileção em criar imagens do cotidiano e interagir com elas. De forma que a realidade é posta em segundo plano perante às minhas confabulações com o imagético; não é bem o fenômeno de sonhar acordada, é mais uma necessidade de criar pequenas situações, diálogos sem importância ou tiradas engraçadinhas. É como se eu tivesse a necessidade de viver alguma coisa, nem que ruim, a cada instância do fôlego. Muitas vezes, esqueço a vida real, de tanto que me enfio nessas arapucas de vivência, e quando resolvo voltar, encontro-me feito José no eterno “e agora” de uma festa acabada.

A imaginação tornou-se uma espécie de vício, algo que me salva do marasmo e, ao mesmo tempo, aprisiona num mundo completamente vazio de gente. Existem personagens no meu diálogo de paredes, mas sei que abstração de pessoas não é necessariamente uma forma saudável de companhia.

É no papel que encontro uma maneira de registrar essa segunda vida e fazer dessa patologia algo aceitável aos meus. Se não fosse a literatura e suas possibilidades, eu não sei o que seria de mim.

A segunda razão para a minha solitude é a teimosia por situações de nenhum ou quase nenhum desenlace. Sempre considerei a obsessão uma característica de pessoas fortes; por isso, apesar dos conselhos preocupados daqueles que me cercam, nunca deixei as causas perdidas de lado. Sempre esperei dos meus compatriotas algum parecer, e nessas ocasiões, falei sozinha mesmo fora do meu universo particular. Mas sinto que os ares são outros; de alguma maneira mística, as pessoas estão saindo de dentro de suas conchas e eu sinto que devo sair também. Confesso que, quanto mais difícil é o fardo de algumas bandeiras, mais eu quero carregá-las. E o que seria a minha segunda grande estrada para a solidão tornou-se um trecho curto em direção ao outro. Sinto braços estrangeiros num amparo inédito.

Acontece que nesses últimos dias eu venho remoçando… Eu não sei bem o que houve com aquelas pessoas, só sei que vi cem mil delas desfilando no Rio de Janeiro.

Em São Paulo, uma ponte feita só para carros foi tomada por passantes, e eles passaram feitos heróis em cima daquela cimentaiada toda.

Na capital, milhares subiram pelas paredes. Nunca imaginei que uma obra do Niemeyer, ao menos por uma noite, fosse tão completa em toda sua simbologia.

Eu não sei dizer que bicho mordeu esse povo, só sei que de repente brotou corrente onde era espanto, e isso me remoça que é o diabo. Esta noite terá mil vozes. Esta noite, serei duzentos mil.

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