Colômbia em busca da paz

A verdadeira história das guerrilhas na Colômbia há muito foi encoberta pela  propaganda do governo Álvaro Uribe, que, com apoio dos Estados Unidos, conseguiu retirar a legitimidade social de grupos guerrilheiros e cunhá-los terrorista. O processo de paz entre FARC e o governo de Juan Manuel Santos está sendo mediado por Cuba desde 2012 e acredita-se que se chegará ao fim em 2016. Contudo, a paz na Colômbia é sempre contada do ponto de vista do governo, e não das guerrilhas, que tiveram sua história de luta aos poucos apagada pelo discurso governista.

A formação dos grupos de luta na Colômbia remontam da metade do século XX. Os fãs do escritor colombiano Gabriel Garcia Márquez deverão se lembrar que seus personagens sempre sofrem em meio às guerras entre dois partidos: os liberais e os conservadores. Após conflitos sangrentos entre eles, de 1948 a 1958, houve um pacto entre os dois partidos existentes, em que a elite alternava-se no controle da política, fazendo com que a união de conservadores e liberais pautasse a defesa dos grandes proprietários de terra, excluindo grande parte da população.

A partir de fins de 1960, com influência da Revolução Cubana, as guerrilhas começam a se formar na Colômbia. O ELN (Exército de Libertação Nacional) nasce em Cuba e é apoiado pelo governo Castro, que acreditava na revolução socialista internacional e fornecia ajuda a guerrilhas em outros países, como é o caso do Congo e da Bolívia. As FARC nascem em 1965 em solo colombiano e é consequência do assassinato de lideranças populares de discurso anti-imperialista pelo governo da Colômbia. Marginalizados, os camponeses agrupam-se em guerrilhas para lutar contra o governo vigente, em defesa da reforma agrária e de direitos sociais.

No início, a guerrilha era rural, mas, com o passar do tempo, houve a necessidade de conquistar áreas urbanas. O ELN e as FARC tentam expandir seus núcleos para as cidades, mas o apoio que a guerrilha possuía com os camponeses não se concretizou em solo urbano a partir de 1990.

Mesmo assim, as FARC conseguiram expandir suas forças. Seu principal meio de financiamento foi o tráfico de drogas, com o controle de diversas áreas na Colômbia. O ELN, apesar de, no início, ter lideranças contra esse tipo de financiamento, também se associa ao tráfico para se manter como grupo. O governo Álvaro Uribe foi o responsável por diminuir o contingente dos grupos armados, ao fazer uma campanha interna e externa negativa sobre o movimento, associando-os a práticas terroristas e ao tráfico de drogas, acobertando da mídia a tática do exército nacional de guerra aberta, com ajuda de grupos clandestinos formados por paramilitares conservadores, que mataram milhares de inocentes na Colômbia. De qualquer maneira, o envolvimento da guerrilha com o tráfico fez com que o apoio popular diminuísse.

Álvaro Uribe é contra os acordos de paz que acontecem desde 1980. Mesmo quando as FARC tentaram ser reconhecidas como grupo beligerante para ter direitos internacionais, Uribe adotava o dicurso de que a guerrilha era um grupo ligado ao tráfico de drogas e contra a democracia, desconsiderando o histórico e luta da guerrilha. Diferente de seu sucessor, o atual presidente, Manuel Santos, espera que, até março de 2016, o governo colombiano consiga um acordo de paz com as FARC. A delegação das FARC para o acordo encontra-se em Havana para negociações com o governo da Colômbia por meio de mediação do governo cubano. O ELN retirou-se das negociações de paz em Cuba após não aceitar a completa renúncia às armas.

As guerrilhas latino-americanas representam os cem anos de solidão de García Márquez. Elas são a luta formada em decorrência de anos de exclusão, em que as armas que empunham são similares às que carregam os exércitos nacionais, e em que a ligação com o tráfico de drogas não se difere em grande parte dos governos corruptos dos países do continente. A paz entre a guerrilha e o governo deverá ser feita nesses moldes, em que se reconhecem os erros das duas parte, porque essa é a realidade para além das histórias dos mais fortes.

Quando da morte de García Márquez, que muito auxiliou para que a paz fosse celada entre os dois lados, as FARC soltou uma nota em sua homenagem. Nela, a guerrilha dizia “Com certeza Gabo, conseguiremos, com o nosso povo, que Macondo não seja já um pavoroso redemoinho de pó e escombros. E que esse delicado vento de luz que é a paz, embale o nosso presente, enquanto tomas o caminho de Remédios a Bela. Com certeza Gabo, repetiremos em teu nome, com compromisso inquebrantável, que ‘ainda não é demasiado tarde para construir uma utopia que nos permita compartilhar a terra’.”

Esse lado da guerrilha, que busca a paz por meio de compromissos do governo que garantam direitos à população marginalizada é a face esquecida pela sociedade internacional, e que deve ser sempre lembrada.

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