Cocaína e a modernidade líquida

Ele estava tomando antibióticos, e por isso não podia beber. Tomou uma cerveja misturada com soda. Algo que bebiam por lá. Insistiu em pegar uma taça de vinho para fazer companhia à garota. Visivelmente não era tão acostumado a bebidas como outras pessoas. O assunto drogas chegou, e a garota, apesar de não as consumir, disse que não tinha objeções caso ele quisesse fazer uso. O pó foi disposto em uma fileira fina e pequena em um prato sobre a mesa. Ali ficou por cerca de 30 minutos sem ser tocado.

O filme começou, e ele estava em silêncio como era hábito quando apenas na companhia dela, algo que poderia ser percebido como uma introspecção. Fileira absorvida, ele começa a falar sem parar sobre ele mesmo, seus medos, suas dificuldades, seus sonhos. Não há mais filme, nem garota, apenas ele. O vinho começa a ser bebido em alta velocidade, e de uma carreira a outra, os medos são enfrentados, e o mundo vira um grande carrossel em torno dele mesmo. Seus assuntos mais parecem histórias de Homero. Não há realidade. Por um momento, ele deixa de ser quem é.

A história acima pode ser atribuída a diversos personagens. Qualquer conhecedor da droga reconhece seus efeitos, que costumam ser parecidos na maior parte das pessoas. Apesar da droga não possuir o nível de dependência causado pela heroína ou o álcool, ela muda as relações sociais entre o usuário e o ambiente ao redor. Como tudo que é acrescentado a um contexto social, o pó muda as relações pessoais.

A cocaína é uma das drogas mais utilizada no mundo. Diferente da bebida alcoólica e, em alguns casos, da maconha, o usuário, se a consumir moderadamente, pode passar facilmente despercebido. A droga não é altamente viciante, como o álcool e o tabaco, que são lícitos, mas as consequências do consumo frequente podem levar a alterações de comportamento e danos físicos pela aspiração.

No mundo líquido moderno, em que as experiências obrigatoriamente devem ser tantas e tão rápidas e passageiras, a cocaína torna-se o psicotrópico perfeito. Ela dá poder e descontração, além de uma alta carga de individualismo. Com ela, o mundo fica mais fácil. Ela permite que tudo que está ao redor seja esquecido. É a fuga perfeita do abismo contemporâneo que a humanidade construiu.

Contudo, ela é a droga da alienação. Contribui para que o mundo individualista e despreocupado com o coletivo continue existindo. A cocaína retira a dor e faz com que as pessoas fiquem centradas nelas mesmas, quase como um propulsor do que o capitalismo mercadológico deseja de seus consumidores. A sensação de ser um grande herói é desejada por todos, e isso não é culpa da droga. Ela apenas dá às pessoas o que elas desejam: heroísmo e individualismo limitados por uma noite ou ilimitados por uma vida.

*

A garota meche no celular, levanta-se e vai embora. O combinado da manhã seguinte não aconteceu, porque ele não despertou. Passou a noite acordado, sozinho.

 

 

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