A hora e a vez da pedalada

No último domingo, dia 28 de junho, finalmente, a ciclovia da Avenida Paulista, um dos endereços mais importantes da cidade de São Paulo, inaugurou a sua ciclofaixa. Há quem associe essa conquista à gestão do então prefeito Fernando Haddad que, sem sombra de dúvida, foi um grande aliado para a abertura. Mas não foi ele o idealizador da ideia e nem o peão dessa conquista.

A luta por uma ciclofaixa na Avenida Paulista, como em todas as outras vias da cidade, teve início lá atrás na década de 80, com os primeiros grupos de militância ciclista. Os grandes responsáveis, se o momento pede protagonista, são as pessoas que, apesar da falta de espaço, encabeçam uma luta diária pelo direito de se locomoverem de maneira diferente, seja em uma bicicleta, a pé, num skate ou algo que o valha.

Atendendo a interesses sombrios, vendeu-se para os brasileiros o desejo pelo privilégio e pelo particular. E o resultado dessa barganha foi a convicção “dono da rua” que cada motorista motorizado angariou para si.

Essa mentalidade foi projetada de tal maneira para o setor de mobilidade urbana, que permitiu, em grande medida, que o veículo particular atropelasse o transporte público e qualquer outra forma de deslocamento dentro das grandes cidades. O resultado é o que está aí e dispensa comentários.

Não é preciso muito para constatar: a cidade de São Paulo errou o caminho ao priorizar o carro.

Citarei adiante apenas a bicicleta por motivos de abreviação expressiva, mas me refiro a qualquer tipo de alternativa não motorizada.

Andar de bicicleta significa olhar a cidade e permitir que ela te olhe de volta. Simboliza tirar a carapaça de ferro ao redor das pessoas e dar mais chances de aproximação com o outro, apesar de toda a desconfiança e violência que essa cidade sugere e, convenhamos, propicia. A bicicleta sinaliza trocar a mímica detrás do vidro por um diálogo e, se caso a situação vir a exaltar os nervos, então serão sujeitos serotonizados pelo esporte, não cardíacos encurralados, nem dondocas refrigeradas. Perdão pelos esteriótipos.

Os outros, os não de acordo com as ciclovias, os possessos sem vaga de estacionamento, ficariam impressionados com os ganhos pessoais e coletivos que uma mudança de comportamento tão óbvia, como andar de bicicleta, pode causar a uma sociedade inteira. A atitude de permitir às próprias pernas, o esforço de guiar-nos para qualquer lugar, é antes uma adequação aos tempos do que um ato de propaganda partidária. Acredite se quiser.

Encontrando novas maneiras de pensarmos as coisas, contornamos o caminho mal escolhido no passado, o mesmo que nos trouxe até a presente situação.

Quem sabe, se tudo correr bem, algumas bicicletas nos deem uma carona de volta ao trecho da estrada em que erramos. Naquele lugar, agora bem longe, onde havia a bifurcação: à esquerda, público, à direita, privado.

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