Cinco fases do luto (crise)

O interfone toca:

– Ela quer falar com você.

– A água acabou.

– Sim, a região está sofrendo uma crise hídrica, está em todos os jornais.

– Mas não imaginei que fosse chegar aqui.

– A Sabesp diminuiu a pressão dos canos das 14 hs…

– Eu sei de tudo isso. Mas não tinha acabado, a caixa d’água estava aguentando, estávamos conseguindo.

– É uma questão matemática. Se o consumo permanece o mesmo e entra menos água…

– É que, você entende, eu não achei, você entende?

Na psicologia, Elizabeth Kubler-Ross desenvolveu as cinco fases do luto ou da perspectiva da morte, que é composta de negação, raiva, barganha, depressão e aceitação. A teoria de Ross pode ser explicada para perdas pessoais e coletivas e pode ser adaptada para contextos de crise.

Em algumas semanas, o governo terá que declarar um plano para resolver a crise hídrica do estado de São Paulo e, aparentemente, tanto o governador, como a população estão no momento inicial do luto, a negação.

Como na fala anterior, irracionalmente a população não crê que o pior possa acontecer. Apesar da falta de informação dos governantes em todas as esferas, acadêmicos, jornalistas e organizações já começaram o trabalho de alerta às pessoas para a realidade, que parece ser ignorada.

Porém, os brasileiros não estão se alienando apenas para a falta de abastecimento de água. Ano passado, o Brasil cresceu praticamente 0%. Esse ano, a crise hídrica acontece no sudeste do país, responsável pela maior parcela do PIB nacional. As políticas econômicas são recessivas, para tentar segurar a inflação; os preços da energia já subiram pela falta de água e uso das termelétricas; e o etanol e a gasolina deixaram de ser fortemente subsidiados pelo governo.

Politicamente, a presidenta Dilma Rousseff tem forte oposição no Congresso, e o legislativo nunca esteve tão conservador. Os casos de corrupção desestabilizam o governo e sua principal estatal, a Petrobras. Em ano de crise energética, a principal empresa representante da força do país desmorona.  As estatísticas indicam um ano negro para o Brasil em 2015, mas a população ainda segue planejando viagens ao exterior com uma moeda interna que não para de desvalorizar, e com taxas de desemprego que não demorarão a subir.

Todas as grandes crises no mundo tiveram anos de anunciação, mas, quando acontecem, ninguém nunca as espera. É a alienação para a realidade negativa. Atualmente, essa é a fase em que a população se encontra. A próxima será a raiva, e essa já começa a aparecer em conversas de corredor e protestos ainda desestruturados, como a revolta dos caminhoneiros, que alcançou níveis nacionais nos dias 23 e 24 de fevereiro, contra o aumento do combustível e diminuição do preço do frete, mas ainda não possui uma liderança unificada e pauta conjunta.

A raiva explicitada em conversas de corredor tem início com uma questão, e termina sempre na frase: o problema é estrutural, o sistema que vivemos não funciona. As pessoas querem mudança e, a depender de como a raiva será direcionada, os governantes terão que responder por ela. Isso se o povo ainda demandar algo deles. O futuro é incerto.

Para aqueles que já saíram da negação, basta preparar-se da melhor maneira e decidir ser parte ou não da mudança. Esse é um caminho, o outro é seguir as outras fases do luto. Grande parte da história brasileira é rodeada de aceitação, outras, pouco discutidas, não. É hora de escolher exemplos, será Canudos ou nossa vergonhosa redemocratização?

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