Respeita as mina

Eu voltava para casa numa noite de sábado conversando casualmente com o motorista do Uber e, papo vai papo vem, começamos a falar sobre cantadas. Eu disse a ele: tenho uma sorte incomum com esse tipo de abordagem na rua (porque elas não acontecem), e ele me respondeu: “mas você não se acha feia quando ninguém mexe com você”? Choque. Eu não havia previsto aquela pérola.

Ouvir aquela pergunta sincera de um rapaz que de maneira alguma queria ser desagradável me chamou muito a atenção. Ele realmente tinha uma curiosidade sobre mim, porque, veja só que peculiar, eu havia dito que não gostava de cantadas.

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Tempos de reticente

Depois da votação do impeachment na Câmara, suspeito, muita gente deva estar se sentindo como eu me sinto – impotente como cidadã e com muita pena desse país. Nem tanto pelo resultado, um tanto óbvio, da votação; talvez mais por ter assistido àquela truculência televisionada de homens completamente inadequados para a função de averiguadores do sistema democrático. Pergunto-me, o que fazer agora? Como reagir sobre o leite derramado?

Eu, sinceramente, não sei. Não sei se as ferramentas usuais de protesto são efetivas contra uma estrutura tão bem solidificada em sua base.

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A cidade feita de pessoas

Grande parte das cidades médias e grandes no Brasil foram feitas para produtos de consumo. As cidades passaram a ser centro de demanda de bens de capitais e foram construídas ao redor disso. O que se vê são ruas para carros e a inexistência de lugares públicos gratuitos e bem conservados – a praça urbana é o shopping, local mais habitado e desejado no momento de folga. Sem sol, sombra e água fresca, o cidadão perde a identidade e corre o risco de se tornar uma parede de concreto no caos.

A cidade de São Paulo, como tantas outras, é exemplo de que o verdadeiro eleitor é o carro. Rios foram canalizados e soterrados para que o automóvel pudesse passar. A poluição acarreta em milhares de mortes e problemas respiratórios. De acordo com o Instituto Saúde e Sustentabilidade, em 2011, a poluição atmosférica foi responsável pela morte de 2 milhões de pessoas no mundo. Leia

Que bela e recatada situação nós chegamos

Sinto-me sinceramente desmotivada em argumentar contra uma parcela da sociedade brasileira dadas as atuais conjunturas. O desanimo é profundo e sincero, porque os absurdos são tantos e tão rapidamente atropelados, que vale pensar se não estamos falando com uma legião de cegos, surdos e, infelizmente, tudo, menos mudos.

Não bastasse os argumentos vergonhosos dos deputados na votação do impeachment; salve o regime militar, minha neta, deus, família, inocência das crianças, oi?; declarações estas ainda em fase de digestão, já se sobrepõe ao caso a cusparada de Jean Wyllys (PSOL -RJ) em Bolsonaro (PP – RJ) e, como se não bastasse, um artigo da Veja sobre a esposa do vice-presidente Michel Temer intitulado “bela, recatada e do lar”. Leia

Vamos falar sobre o seu autoritarismo

Governos autoritários que limitam as liberdades de escolha da população existem e sempre existiram ao redor do mundo, e o retorno do totalitarismo em qualquer país democrático é uma possibilidade. Porém, quando um país, por alguma razão ou acontecimento excepcional, demonstra que a sociedade é autoritária, com desconhecimento de como escutar o outro, a possibilidade da volta do desrespeito à liberdade é ainda maior. E o brasileiro, mais uma vez, frente ao impeachment da presidenta, se mostra como o homem cordial de Sérgio Buarque de Holanda, tão afeito a receber ordens como a ordenar.

Todos os dias, nas ruas, nos jornais e nas redes sociais, diferentes demonstrações de tirania são testemunhadas no Brasil. Essa semana, vídeo de uma advogada, Janaína Paschoal, favorável ao impeachment, virou febre nas redes sociais. Do discurso, não se podia ouvir uma palavra, tamanha a violência em que a advogada proferia suas frases, em quase uma incitação ao ódio. Muitos fizeram brincadeiras, mas muitos irão replicar esse discurso, que demostra total e completa falta de diálogo e discussão, em um período que se precisa mais entender e ouvir, que proferir afirmações superficiais. Leia