Casa 1 para um começo

Sentado à mesa de um bar, uma coca e um jornalista. Iran Giusti, 27 anos, jornalista e militante LGBT, começa a falar de vontades e loucuras que se tornaram reais. A Casa 1, única casa em São Paulo criada para acolher LGBTs expulsos de suas casas ou em situação de rua tornou-se real em dezembro, após Iran abrir um financiamento coletivo na internet. A casa é um lindo sobrado em uma esquina no centro da cidade e já traz cores e diversidade para a região.

O começo da militância de Iran foi descrito como individual e bastante distante de problemas reais. De acordo com ele “a gente tem uma tendência social a se fechar em determinados grupos”, e mesmo a militância de cada grupo se fecha, muitas vezes sem entender o preconceito e sofrimento de outros grupos. Quando começou a alugar o sofá de sua casa no Airbnb, falando que recebia LGBTs que não tinham para onde ir, surpreendeu-se com a procura. Daí veio a ideia de criar a Casa 1, um espaço cultural e de acolhimento – “parte (dos amigos) achou que eu era um heroi e parte um louco”.

A casa abriga um número limitado de hóspedes que podem ficar até 3 meses – travestis, transgêneros e gays dividem o mesmo teto provisório em busca da identidade  e melhor destino negado por familiares e a sociedade. Porém, nada é uma completa regra pois cada novo morador é tratado como único.

Um dos moradores, com 26 anos, relata as dificuldades de ser transgênero no Brasil. De acordo com ele, “quanto mais se aproximou da hormonização, eles (a família) começaram a fazer da minha vida um inferno…ou vou sair daqui ou vou ser quem eu sou”. Ele hoje vive na casa enquanto procura uma residência permanente.

De acordo com Iran, as histórias na casa são bastante diferentes de uma pessoa para outra. Chegam pessoas de diferentes classes, com distintas questões. Há muitos casos de automutilação e suicídio. A identidade é o mais importante em uma pessoa e aqueles que nascem querendo ser de outra forma ou ter um outro corpo sofrem por olharem a si mesmos e não se reconhecerem em um corpo e roupas que não desejam.

Para Iran, a intolerância e o preconceito pouco mudaram no Brasil. “Conforme a gente vai ficando confortável, encontrando nossa comunidade, você acaba sendo menos impactado por jovens expulsos de casa, por casos de agressão…passa uma leizinha ali e você fala yes, estamos evoluindo, mas aí quando você quebra a casquinha desse ovinho que você está, você percebe que não mudou nada.”

O ativismo como um todo, mesmo muitas vezes, o próprio ativismo LGBT, pode ser branco e classista. O verdadeiro poder de mudança vem de uma luta com maior diversidade, aquela que seja também preta, pobre e tenha tetas que batam na cara de todos, a exemplo dos travestis, um dos grupos mais antigos na sociedade e que continuam em completa exclusão. Enquanto isso não existir, haverá sempre uma reprodução de discurso e mudança superficiais, feitas com o propósito de fazer com que o mundo permaneça o mesmo.

A iniciativa de Iran Giusti está apenas começando, mas mostra a mudança que todos desejam, mas poucos fazem para torná-la realidade. A Casa 1 nasce corajosa e se impõe em uma esquina da grande São Paulo trazendo cor para o cinza da selva de pedras, e colorindo de diversidade um pontinho, mesmo que ainda pequeno, da mente de uma sociedade monocromática.

Visite a página no facebook: https://www.facebook.com/casaum/?fref=ts.

Uma resposta para “Casa 1 para um começo”

  1. Cherlin disse:

    That’s an astute answer to a tricky quetsion

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