Cadê a mea culpa

No fim de semana, dia 3, um hospital dirigido pela organização internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) na cidade de Kunduz, no Afeganistão, sofreu um ataque aéreo. Entre tantos bombardeios aleatórios e não noticiados acontecidos naquele país, atingiram e mataram, dessa vez, funcionários: brancos, ocidentais, norte-americanos e europeus; pausa dramática para os dois últimos tipos. Pessoas que estavam a serviço de uma organização humanitária internacional dentro de uma área de neutralidade em situação de conflito, de acordo com as leis mundiais de proteção aos civis em regimes de guerra.

Ainda não se sabe os motivos reais da ação, afinal, tratava-se de um hospital de civis. Mas é possível algumas sugestões. A cidade de Kunduz, principal cidade da província de mesmo nome, fica ao norte do país e localiza-se em uma área estratégica por conectar a região norte com a capital Kabul. No final de setembro desse ano, Kunduz foi dominada pelo Taliban, representando o primeiro avanço militar da organização desde 2001, quando foi afastada do poder por tropas norte-americanas após o atentado de 11 de setembro de 2001. As datas coincidem, convenhamos, de uma forma um tanto suspeita.

Se fosse só mais uns médicos afegãos mortos em meio a tantos milhares de outros, nem haveria notícia, porém, nesse caso, existe um quê de exclusividade – é a primeira vez que um vencedor do Prêmio Nobel da Paz, Barack Obama, bombardeia outro Prêmio Nobel, a organização MSF.

O presidente dos Estados Unidos discursou no início da semana sobre o “incidente” pedindo desculpas para a organização MSF e responsabilizou o governo do Afeganistão pelo pedido de reforço bélico no local, o hospital, no caso. A versão do governo Afegão sobre os fatos não foi noticiada, mas pode ser sugestionada pelas declarações da organização MSF, que considera as acusações do governo norte-americano insatisfatórias e irreais.

Quando se trata de ressentimentos de guerra e demonstração de força bélica, é difícil confiar em “deslizes”. Lembremos-nos da bomba atômica de Hiroshima e Nagasaki, da capacidade norte-americana de pulverizar cidades inteiras apenas para transmitir em alto e bom som who´s the boss.

O que seria então um hospital com uns quarenta feridos, uns tantos mortos, lá pelas tantas onde Alá perdeu as botas? Porém… Um cadáver afegão não causa a mesma comoção midiática que um defunto europeu, nem pesa tanto nas decisões dos Conselhos de Segurança Internacional da ONU. Daí, nesse pequeno detalhe, OTAN descuidou-se.

A instituição internacional Médicos Sem Fronteiras, uma francesa mais desacostumada com injustiças, não se cala e nem aceita as sinceras desculpas do presidente. Joanne Liu, presidenta do MSF, exige a criação de uma comissão de inquérito internacional contra o bombardeio no hospital de Kunduz. Ela declarou não confiar na justiça de um inquérito militar interno da OTAN e relembrou a comunidade internacional sobre as  cláusulas humanitárias da Convenção de Genebra. Liu considera o bombardeio em Kunduz um crime de guerra e exige justiça.

Os detalhes… Ah os detalhes. Os detalhes prenderam Al Capone, senhor Obama.

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