Boi Neon e a reinvenção do sertão

O prestigiado filme Boi Neon de Gabriel Mascaro entra em cartaz nos cinemas essa semana, quinta-feira dia 14 de janeiro, depois de transitar por mais de trinta festivais e acumular quatorze prêmios, sendo quatro deles na categoria Melhor Filme.

Nos bastidores das tradicionais festas de Vaquejada acompanhamos a rotina do peão Iremar (Juliano Cazarré), de sua colega Galega (Maeve Jinkings), dançarina erótica e motorista no caminhão de gado onde residem, e da menina Cacá (Alyne Santana), filha de Galega. Juntos constituem uma família improvisada sobrevivendo dos festivais agropecuários.

Iremar sonha em trabalhar com o feitio de roupas nas confecções do agreste pernambucano e não esconde o seu desejo. Nas horas vagas da lida com o boi, ele esboça figurinos sensuais para Galega em surradas revistas masculinas de páginas coladas. O vaqueiro rústico e viril se curva sobre uma máquina de costura a meia luz de forma tão natural que o suposto contraste se neutraliza e não se apresenta na imagem exibida. O estranhamento acontece, caso aconteça, nos bastidores do próprio espectador. O mesmo fenômeno é observado em Galega, uma mulher vaidosa, uma mãe como qualquer outra, que sustenta ela e a filha pilotando e fazendo a manutenção de um caminhão de gado.

O diretor, Gabriel Mascaro, afirmou em entrevistas o intuito de ampliar as possibilidades dos gêneros ao extrair o convencionado ideal para o feminino e o masculino; tanto em relação à estética, um peão de chapinha no cabelo, quanto a ocupações profissionais. Em Boi Neon não há espaço para os padrões masculino e feminino de conduta diante de uma realidade nova e em constante modificação.

O enredo também surpreende por não obedecer às estruturas convencionais do storytelling; o filme omite o passado e o futuro dos personagens e retrata pessoas coladas ao cotidiano – a aposta nas ações performáticas-, criando figuras com uma veracidade impressionante.

A paisagem da “região problema” do Brasil vem se transformando na vida real e foi lindamente retratada nos primeiros minutos do filme quando Iremar vai ao brejo resgatar as sobras das confecções.

O tom monocromático do brejo sede lugar a um gramado de tules, lantejoulas, fitas e paetês; e um sertanejo trafega por esse jardim, não de passagem, como se imagina, e sim à procura das possíveis migalhas aproveitáveis daquela nova natureza apresentada.

Boi Neon revela o Nordeste de hoje, cosmopolita e culturalmente diversificado, em contrapartida àquela imagem cristalizada do retirante, fanático religioso, paupérrimo, viril e valente, construída no imaginário cultural brasileiro por meio da literatura e do cinema da década de 60. O estado de Pernambuco, atualmente, comporta o segundo maior polo de confecções de roupas do Brasil, perdendo apenas para a região sudeste.

Sendo assim, o filme revela o sertanejo no delicado processo de transformação de seu meio. De um lado um homem misturado aos bichos, de outro o mesmo à procura de uma nova identidade. Sem abrir mão da poesia estética, Boi Neon exibe uma nova cara para o nordeste.

O filme termina com a trama, ao moldes da vida, seguindo ao imprevisível. Em contrapartida, deixa-se a sala de cinema com qualquer coisa expandida dentro de si.

Deixe uma resposta