Black is beautiful

“Eu recebi a carta de uma garota e gostaria de dividir um pequeno trecho: Querida Lupita, você tem muita sorte de ser tão negra e ainda assim tão bem-sucedida em Hollywood, eu já estava prestes a comprar o creme whitenicious da Dencia para clarear minha pele quando você apareceu no mapa e me salvou. (…) Lembro-me de uma época em que eu também me sentia longe de ser bela. Eu ligava a televisão e só via peles brancas, ficava aborrecida e insultada com a minha pele cor da noite e pedia a Deus para acordar mais clara. (…) Minha mãe dizia: você não pode comer beleza, isso não te alimenta. Essas palavras me aborreceram até que eu finalmente compreendi que a beleza não é algo que podemos obter ou consumir, é algo que eu apenas tenho que ser – uma pessoa bonita”. *

* Fragmento de discurso de Lupita Nyong’o no evento Mulheres Negras em Hollywood.

De acordo com pesquisas do IBGE, os brasileiros usam o termo “moreno” para assinalar qual é a cor de sua pele. Quando a resposta é livre, variam entre “queimado de sol” e “moreno claro”. As pessoas se incomodam em admitir que têm pele escura, negra em alguns casos, porque carregam, em suas disfarçadas compreensões, que o negro não é bonito.

Aprendemos com anos e anos de racismo que a pele escura não está dentro do padrão convencional de beleza, até que Lupita estampa a capa da revista norte-americana People com o título de mulher mais linda do mundo. Uma estratégia mercadológica ou uma mudança de comportamento?

É interessante notar que a revista, dando esse título a ela, apresenta um novo formato de beleza, em que valoriza, não só a cor da pele, como os traços físicos não europeus. Outras mulheres negras, como Halle Berry, já foram contempladas pela revista, mas todas elas possuem atributos dentro daquilo que convencionamos bonito: nariz fino, cabelos alisados, etc. Nunca houve alguém negro, com traços negros e de nacionalidade africana naquele posto.

A mulher e o homem negros estão em vantagem em relação a pessoas brancas apenas quando tratamos de mitos populares relacionados ao desempenho sexual. É comum ouvirmos que “as mulatas são mais quentes” sem nem nos darmos ao trabalho de pensar o que tal afirmação realmente significa. Comentários assim mostram o repertório cultural de uma sociedade que considera a pele negra mais adequada para o consumo sexual, justamente pelos anos de exploração sexual a que a população negra foi submetida. Daí a origem de algumas crendices populares, enrustidas de racismo, tão bem divulgadas na geração atual.

O que a People fez foi colocar uma mulher negra para ser respeitada e admirada no lugar de uma mulher branca. E isso é, de fato, inédito.

Preferência não se discute e muitos discordam que Lupita seja a mulher mais bonita do mundo, mas a presença dela naquela capa significa muito mais do que uma escolha estética: é também uma abertura para discutir como se operam as construções sociais sobre beleza na sociedade ocidental.

Perceber o “estranhamento” que causa uma mulher negra na capa de uma revista sendo considerada mais bonita que muitas outras celebridades brancas é uma maneira de admitir o quanto tendemos a achar bonita apenas a imagem estampada no rosto de nossos colonizadores.

Os padrões estão se afrouxando para a diversidade e já vemos uma sociedade diferente da que tínhamos no passado, mas ainda estamos longe do ideal.

Valorizar os traços de origem africana que carregamos em nossa fisionomia é também um ato político, para além de uma escolha puramente estética.

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