Belo monstro

Em meio a denúncias de corrupção, os jornais voltam a mencionar a terceira maior hidrelétrica do mundo – Belo Monte -, também dona de um legado de violação de direitos humanos. É questionável, no Brasil, a razão dos holofotes, já que o crime de corrupção nesse caso pode ter sido um dos menos graves frente às mortandades que cercam a usina desde sua construção.

Em 15 de abril, a usina foi multada em 35,3 milhões pelo Ibama por mortes de peixes e fornecimento de dados falsos para a implementação. Belo Monte é administrada pela Norte Energia, consórcio formado principalmente pelo grupo Eletrobras, e possui outorga de operação de 35 anos. Além da recente multa, houve pagamento de propina por arte da Andrade Gutierrez para que a construtora fosse a responsável pelas obras no empreendimento. O pagamento foi de 20 milhões, divididos entre PT e PMDB.

Milhares de pessoas foram retiradas à força para a construção da usina. Povos ribeirinhos foram transferidos para longe de seu sustento econômico advindo da pesca, e a população rural migrou para a cidade, porém não há infraestrutura municipal para o repentino crescimento da população urbana. A população indígena, além de sofrer com a diminuição de peixes, tornou-se altamente vulnerável às mazelas das cidades, como doenças e alcoolismo. Entre 2010 e 2012, a desnutrição infantil nas aldeias da região cresceu 127%, de acordo com dados do Instituto Socioambiental (ISA).

Porém, a hidrelétrica volta aos holofotes pelo pagamento de propina de milionários para milionários. Todas as licitações de obras no Brasil possuem propina com carta marcada, não existe processo competitivo de entrada em obra do governo. Não há novidade no que diz o delator. A mudança virá no dia em que vidas humanas tiverem o mesmo valor que o dinheiro da corrupção.

Em um país que apenas vale o capital, a corrupção é a pior ameaça e perigo.

De uma escritora que espera um dia poder ver a degradação social entendida como o crime mais perverso.

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