As vidas do Cine Belas Artes

Nascido em 1956, seu nome de batismo era Cine Trianon. Em uma época que não havia programações variadas na TV, coabitou, até 1966, lado a lado de outro cinema, o Cine Ritz. Essa irmandade gêmea entre os dois cinemas faz com que muitos os confundam, mas a certidão de nascimento existe para que não haja erros.

Foi edificado pelo arquiteto Giancarlo Palanti, italiano que emigrou para o Brasil no pós-Segunda Guerra Mundial, em 1946. Palanti cedeu ao Cine Trianon as características da arquitetura milanesa. Seu nome não aparece nos anais da Revista Acrópole, que creditava a paternidade à construtora que o empregava, Construtora Alfredo Mathias S.A.

Muitas vidas passaram por ali, não apenas as de pessoas, mas também as dos grandes atores nas telas. No dia em que veio ao mundo, estava passando o filme Eles se casam com as morenas, com Jane Russel e Jeanne Crain, uma sequência sem grande entusiasmo de Os homens preferem as loiras, com Marilyn Monroe. Não poucos devem ter sido os que voltaram para casa sonhando com um amor em Paris.

Havia uma grande calçada em frente ao cinema, onde as pessoas se encontravam antes de viver a vida de outros dentro das grandes salas do Trianon. Quando as salas enchiam, homens e mulheres sentavam-se no chão com os olhos grudados na tela, sem se importar com o desconforto da falta de poltrona apropriada.

Em 1967, o Trianon cansou-se de sua idade e conceito. Surge em grande estreia o tão conhecido Cine Belas Artes. Ali, grandes obras de arte cinematográfica seriam exibidas. O jornal que anunciava a inauguração dizia que os dirigentes ainda estavam em dúvida de qual seria o thriller da grande noite – a disputa era entre Fellini, Francesco Rossi e o cineasta tcheco, Milos Forman.

Desde então, o Cine Belas Artes faz jus ao nome e exibe grandes clássicos do cinema arte. Na ditadura militar era reduto de revolucionários como Glauber Rocha, Godard, Herzog e Rui Guerra, e a juventude comparecia em peso, para alimentar os pensamentos que autoritariamente haviam sido alienados.

Incêndio também houve, foi em 1982, – caso mal resolvido. Aparentemente, colocaram fogo para roubar o cofre da bilheteria, nenhuma morte e, portanto, nenhum fantasma para assombrar por lá.

E entre muitos anos de portas abertas e poucos meses de portas fechadas, o Cine Belas Artes foi persistindo, até que, em 2011, para a perplexidade de todos, foi anunciado seu fechamento. Protestos e abaixo-assinados surgiram. Tentativas loucas de levantarem o moribundo foram vãs. E muitos foram os dias que só se via o grande prédio quadrado esquecido no vai e vem da Paulista com a Consolação.

Mas eis que esse fim de semana, após quase 3 anos fechado, o Cine Belas Artes reabre suas portas e levanta suas cortinas para o público. Com filmes clássicos e atuais de grandes cineastas, o Belas Artes conserva sua essência. Haverá mais estórias a serem contadas dentro e fora das telas. Daquela esquina sairão sorrisos, lágrimas e risadas, beijos, burburinhos e amores, como sempre aconteceu, desde 1956. Como diria Jean- Luc Godard: “a história deve ter um começo, um meio e um fim, mas não necessariamente nessa ordem”.

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