As mulheres de Jorge e as de hoje

Jorge Amado foi incompreendido em seu tempo por seu pensamento e posição política. Declaradamente comunista, militante do Partido Comunista Brasileiro e engajado na política do País, o romancista do povo é lembrado pela sensualidade de seus personagens, que nas mãos dos canais televisivos brasileiros e de telespectadores conservadores tornaram-se sexuais, se não pornográficos.

Infelizmente, é assim que a personagem Gabriela, do mais conhecido livro do autor, Gabriela, cravo e canela, é vista dentro de uma sociedade que não compreende o autor e o feminismo. O machismo brasileiro está incrustado em homens e mulheres. Gabriela é um ser humano livre, com escolhas baseadas em vontades não reprimidas pela moralidade que deseja moldar. Ela é bicho, é homem e é mulher; é pessoa. Gabriela não mente ao ser questionada. Ela trai o marido, mas nem casar queria, ou queria, para ficar bonita, para não magoar alguém que lhe fazia bem; mas só por isso. Diferentemente do sensualismo para atrair o telespectador, Gabriela é inocente no sentido puro da palavra, inocente em fazer o que quer e não o que mandam.

Autor e personagem não são totalmente entendidos em uma sociedade em que muitos pensam que inventar um aplicativo que avalia homens com perfis no facebook é sinal de feminismo, que o casamento é finalidade e que o estupro é vergonha e culpa. Apesar de leis, como a Lei Maria da Penha, promulgada apenas em 2006, contribuir para penalizar crimes contra as mulheres, ela não modifica o cerne da razão do crime – a descriminação de gênero. Como apenas quem é negro pode compreender completamente o racismo e quem é homossexual pode entender totalmente a homofobia, apenas quem é mulher pode compreender por inteiro o que é machismo.

Gabriela, assim como Dora, de Capitães de Areia, e Lívia, de Mar Morto, é heroína. Aliás, todas as personagens de Jorge Amado, principais ou coadjuvantes, são heroínas. Elas são iguais aos homens na mente não sexista do autor. Elas são pessoas, que lutam e acreditam, que realizam desejos, que erram.

A sociedade brasileira ainda sofre dos preconceitos mais diversos, sendo o de gênero apenas um deles. O machismo não é dom de homens, é também de mulheres. Leis ajudam a punir, mas o objetivo deve ser não haver punição, por não haver crime. O dia que entenderem Gabriela e Jorge Amado, estaremos um passo adiante da igualdade de gênero no Brasil.

Deixe uma resposta