Arte morta

Na porta, um mendigo deitado e um homem forte mal encarado. Quem fala é aquele que imita os mortos: veio para o velório? Gaguejo. Sim, onde é? No fundo, lá em cima, quer que olhe o carro? Claro.

Cemitérios são museus a céu aberto, seja pela arte ou pela história que carregam, e a cidade de São Paulo possui um dos maiores acervos esculturais do país. Em uma mistura de ostentação e dor, anjos e pessoas pousam sobre as lápides, em um ambiente em que as esculturas de mármore, pedra ou cimento tornam-se as únicas formas que habitam o local.

Um senhor adentra uma porta entreaberta, de mãos dadas como uma mulher de mesma idade, cabelo amarrado próximo à nuca em um coque. Os dois vestem roupas sociais, como se fossem a uma igreja na década de 1950. Essa é a escultura de Angelo Chinaglia, denominada Família, no Cemitério São Paulo.

Do artista Alfredo Olliani, a escultura Último Adeus, foi encomendada por uma viúva que perdeu o marido. Nela, um homem beija a boca de uma mulher morta, representando ela morta pela dor e ele eternamente vivo.

Dois anjos guardam o túmulo da família Scuracchio, ostentando um Victor Brecheret, escultor enterrado no mesmo cemitério São Paulo, mas que não possui monumento de igual grandeza.

Mesa comprida, com um pão sobre a mesa – intacto. Um homem olhando o horizonte e o filho com a cabeça enfiada entre os braços jogados sobre a mesa, como se chorasse. Havia apenas um lugar vazio; e a mesa que parece tão grande para apenas duas pessoas. Essa é a obra de Galileu Emendalli, chamado de o túmulo do pão, encomendada por um jovem viúvo.

A elite paulista pós-aristocrática, sem lugar para descansar no Cemitério da Consolação ou do Araçá, mudou-se para o Cemitério São Paulo no início do século passado. As esculturas são grandiosas e reais, com traços vezes modernos, vezes art nouveau. A realidade no vazio do local faz da arte ainda mais real, como se as estátuas estivessem vivas.

Como o marido falecido representado vivo, beijando a esposa abandonada, o desejo dos que ficam parece ser o de conservar em vida os que se foram. Ou mesmo, deixar uma marca elitista do poder de classe de quem já faleceu. Desejos inúteis, a não ser pela beleza que enaltecem para quem passa para visitar as estátuas vivas, sem mortos para recordar.

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