Aqui se faz aqui se paga

Eu me lembro do sucesso do personagem capitão Nascimento no filme Tropa de Elite, do diretor José Padilha. Impossível se esquecer do quanto esse sujeito foi beatificado pelo público.

O comandante do Batalhão de Operações Policiais Especiais, BOPE, foi retratado pelo cineasta como um homem desequilibrado na sua vida pessoal e capaz de torturar um adolescente com uma sacola plástica, uma escopeta e um cabo de vassoura. E a grande maioria do público assistiu as mesmas imagens que eu, mas preferiu enxergar o capitão como um sujeito extremamente eficiente, forte, correto e (só por deus) sexy!

Farei colocações na primeira pessoa do plural, nós, porque pretendo me por na pele da assustadora parcela conservadora da sociedade brasileira. Atenção, leitores! Esse é um mero exercício de reflexão conjunta.

Seria culpa do nosso passado ditatorial? Ou fomos adaptados ao comportamento bélico agressivo norte-americano? Não se sabe. A cruel constatação possível é que endossamos a violência.

Aplaudimos a violência e votamos em sujeitos violentos, feito o nosso querido governador Geraldo Alckmin e, mais pop essa semana, o governador do estado do Paraná, Beto Richa. Elegemos essas pessoas!

Daí, quando um grupo de professores resolve acampar em frente à Assembleia Legislativa, reivindicando os seus direitos, e a polícia dispersa na “porrada” a manifestação, a gente se indigna. Ué, a policia senta o cassetete em manifestante e grevista todos os dias, o que houve de estranho dessa vez?

Uma sociedade que tolera e aprova a tortura de crianças e adolescentes nas periferias e morros, como faz o BOPE, não deveria se incomodar com uns furinhos de bala de borracha na cara de uns professores desocupados. Mas parece que incomodou. Estranho…

Vai ver tinha pouco negro correndo da polícia, daí destoa daquilo que se espera de uma multidão encurralada pela PM, não é mesmo?

Ironias à parte. A cruel realidade é – aqui se faz e aqui se paga. Se a sociedade está disposta a ser algo truculento e ditatorial, pois então que veja de olhos bem abertos o resultado das más escolhas. Não estranho quando as coisas saem das vias do aceitável, porque sei que vivo em meio a um conjunto de pessoas que aprovam atitudes inaceitáveis. Chocar-se com certos acontecimentos é quase uma hipocrisia.

Ahhh, já ia me esquecendo, o último que sair, por favor, apague a luz.

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