Amor em Rede

Na era da tecnologia, todos se comunicam por computadores. O intimismo de se escutar a voz do outro por telefone acabou. O frio na barriga e as mãos geladas de suor por falar, ou tentar falar, ao telefone pela primeira vez com quem se gosta também. As pessoas não terminam amizades, namoros ou encontros, elas deletam e bloqueiam, sem chance alguma de deixar o outro intervir, falar, ou apenas olhar com olhos que pedem a volta. Há a chance de se conhecer mais pessoas, facilidades de encontrar amigos diversos, mas há o controle sobre isso, propiciado pela rede que liga e desliga. A sociabilidade natural do homem transformou-se em consumo controlado de relações.

A sociedade consumista criada para nutrir a economia do capital funciona por meio da oferta e demanda de bens. Consome-se e descarta-se, para que a roda econômica, em busca de porcentagens cada vez maiores, gire. A compra e venda diária foi transferida para as relações interpessoais. A internet, como principal meio de difundir o consumo, é o instrumento da sociedade objeto. Por meio dela e das redes sociais, muitos vendem personagens que desejariam ser e compram imagens fictícias. As pessoas não se encontram, no sentido amplo da palavra, porque não querem se deparar com a triste realidade de serem desvendadas. Nesse contexto, um novo relacionamento surge: o ficar.

O ficar vem transvestido de anarquista avesso a instituições criadas para moldar, mas como toda criação do capital, isso é uma mentira. Amar, apaixonar-se, adorar: esses são os verdadeiros anarquistas, e não o vazio de um verbo que representa estar sem se envolver, e que, em última instância, resume-se a consumir. Não há tempo para o saber e conhecer na geração fast-food, consome-se o que é mais rápido e fácil, sem se importar com o que há ali. Da mesma maneira, no consumo a dois, não há interação. A fala resume-se a momentos esporádicos, e o que predomina é a escrita objetiva. No whatsapp, é mais fácil prosseguir sendo a pessoa da foto do facebook.

O amor capitalista é a melhor criação do homem, porque poupa o indivíduo da dor – maior medo humano. Poupa-o da dor de pensar, escolher ou ser rejeitado, tudo por meio do consumo rápido, que permite trocar bens e pessoas, fazendo com que a troca seja esquecimento. Jonathan Franzen no conto A dor não nos matará escreve: “Dizer a si mesmo “Ah, vou deixar pra mais tarde essa história de amor e dor, talvez para depois dos 30” é como se resignar a passar dez anos simplesmente ocupando espaço no planeta e consumindo seus recursos. Resignar-se a ser (e emprego a palavra em seu sentido mais pejorativo) um consumidor”.

A internet difunde conhecimento e propicia união. Contudo, a maneira que está sendo usada por uma sociedade mergulhada em valores superficiais faz com que ela seja parte das pessoas, quando não as próprias pessoas em versões artificiais. Toda arma pode se voltar contra seu criador, e a esperança é que, um dia, a internet volte ao papel de mero telespectador da vida. E que o amor, a paixão e a dor sejam novamente os verdadeiros anarquistas.

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