Aleppo, Síria

A noite em Aleppo não descansa. Tiros e tumultos de pessoas que se movem pelos escombros são sentidos durante as 24 horas do dia. Antes da guerra civil, Aleppo era a maior cidade da Síria, símbolo de riqueza. Agora, ela ainda existe entre os escombros, representada por atiradores e pelos mais pobres que não conseguiram fugir.

 O Exército de Libertação Nacional (ELN) e as forças militares de Bashar al-Asssad fizeram da cidade o mais simbólico campo de batalha moderno. Atiradores de ambos os lados escondem-se atrás das ruinas do que restou dos prédios destruídos pelos bombardeios do governo. O ELN é formado pelos ativistas dos inícios dos protestos na Síria. Para a maioria, essa é a primeira vez que pegam em armas e matam alguém. Apesar de serem religiosos, não são esses os motivos que os fazem lutar. Após assistirem 25 mil pessoas morrerem apenas por fazerem oposição ao governo, decidiram pegar em armas.

No campo de batalha, há civis que tentam ter um cotidiano. Não há comida e falta água. O pão é distribuído pelas organizações humanitárias na região, mas não é suficiente. Há barricadas construídas para que os civis possam se deslocar, mas de uma para a outra, eles correm com a cabeça abaixada, atentos aos barulhos dos tiros. Crianças e mulheres são alvos dos atiradores de Assad, e muitos parentes morrem ao tentar resgatar desesperadamente o corpo de um familiar. Pelas leis internacionais de guerra, esse fato é inconcebível.

A Síria, seis meses após os protestos civis, tornou-se palco para diversos movimentos e organizações de luta armada. A entrada de outros elementos no conflito serve de álibi para que o governo convença o Ocidente de que é necessário proteger o país. A mistura de grupos atuando na Síria atrapalha o entendimento da guerra, que se agrava a cada ano.

Em Aleppo, há crianças que lutam ao lado dos pais, consequência dos níveis de miséria e necessidade que o ELN chegou. Todo o rebelde tem uma antiga função civil, que praticava antes de 2012, ano em que começa as batalhas armadas na cidade. No documentário, realizado pela Al Jazeera,  Notes from the darkness, Mohamed consertava celulares, quando juntou-se ao povo nas ruas para fazer oposição à ditadura. Os ativistas eram mortos, torturados ou desapareciam. Logo as pedras transformaram-se em rifles. A maioria não acredita que irá sobreviver para voltar à sua antiga função após a guerra.

O grande desafio do ELN é que não possuem organização e hierarquia clara. Como o grupo armado é formado de ativistas, não houve tempo para estruturar o movimento. A falta de lideranças dificulta a atuação dos opositores e os enfraquece perante o exército do governo. Mesmo assim, o ELN prossegue uma luta incessante. Há hospitais clandestinos e tentativa de proteção aos civis.

Aleppo é uma cidade distante dos olhos do mundo e, infelizmente, está esquecida pela população mundial. Aquele microcosmo sofre a cada dia, e a luta pela liberdade vai além das palavras. A realidade da população dessa cidade pode ser comparada com as piores do mundo, mas são poucos que se prezam a tentar entender o que acontece ali. São os sírios que lutam e, se um dia conseguirem a liberdade em vida, que ao menos o mundo reconheça que foram esses homens que a arrancaram de si mesmos para dar ao povo.

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