Acorda amor

Hilda Hilst carregava uma dúvida ética muito grande: não sabia se tinha o direito de fazer perguntas às pessoas de maneira que tirassem elas do conforto das certezas absolutas. Em outras palavras, não sabia se era certo acordar os outros do sono da normalidade. E quando resolvi escrever sobre relacionamentos afetivos amorosos, encontrei-me em situação semelhante.

De antemão, justifico meu ponto de vista como apenas conjecturas sobre um determinado tema, gasto pra caramba, porém fundamental. Vejam bem, verdades sejam ditas, falemos sobre o amor e suas possibilidades.

Sinceramente, não confio nas estradas por onde andam os filósofos, sexólogos, psicanalistas, gurus, pastores e afins. Todos dizem sobre a evolução (para o bem e para o mal) das relações afetivas no mundo contemporâneo, quando, lá dentro, algo me sugere que nada mudou. O amor permanece o mesmo descontrolado de séculos atrás a endoidar todo mundo sem aviso prévio. E são anos e anos na tentativa pífia de burocratizar esse transtorno.

Zygmunt Bauman, na obra Amor Líquido, diz algo parecido sobre o tema: “precisamos construir uma linguagem do “faça sentido” para alcançarmos o conforto espiritual”. Nessa passagem, o pensador comenta sobre a fissura humana de classificar o terreno por onde caminha, uma maneira de apaziguar as ansiedades criadas pelo desconhecido, por aquilo que não temos controle.

Temos a tendência de simplificar em fórmulas pré-fabricadas a nossa maneira de nos relacionarmos, há o receio do novo, daquilo que não conseguimos definir e, com boas e velhas gavetinhas, criamos a falsa ilusão de controle.

Descobrir novos encaixes e caminhos com e para o outro, por mais sinceros e adequados que possam ser, exige esforço e coragem. Não é confortável nadar contra a correnteza e nem todos estamos preparados para isso; a grande maioria nem sabe da liberdade que possui, de tanto tempo dormente nas realidades onipresentes, óbvias e fundamentais do status quo.

Porque não é só tecer um tipo de trama inédita sob os pés, é colocar-se na contracorrente da massa que faz tudo sempre igual por anos e anos e anos a fio. Uma série de amarras comportamentais que mais atrapalham do que ajudam.

Existe sim a possibilidade de estar ao lado de alguém e chamá-lo apenas de amor. Um alguém atrelado a você pelas únicas amarras aceitáveis no afeto, os delicados fios da vontade.

Não estranhem, caros leitores, se um arranjo diferente de amor perturbar a maioria.

As pessoas tradicionais não se incomodam com a gente, o que elas detestam mesmo é a possibilidade de mudança ou de desarranjo que gente como a gente propõe. Arrisco dizer que um despertador apita a cada afeto indefinido que se mantém ao acaso. E isso não faz de nós menos amantes e amáveis. Só um tipo alarmante.

Deixe uma resposta