Acima das Nuvens

O diretor Olivier Assayas, em um primeiro momento, parece produzir um pouco mais do mesmo com a fórmula – a estrela de cinema mais velha sendo substituída – porém, como na arte não é bem o que se diz e sim a maneira como se fala, Assayas mostra na produção de “Acima das nuvens” uma imensidão de contrastes.

Julliete Binoche interpreta a estrela de cinema Maria Enders que é convidada para reencenar a peça Maloja Snake que, na trama, levou-a ao estrelato. O enredo da peça fala sobre uma mulher mais velha apaixonada por sua assistente vinte anos mais jovem e que, sendo rejeitada pela parceira, escolhe o suicídio.

As atrizes convidadas para interpretar a peça ilustram o contraste entre duas gerações, uma com uma sólida carreira construída a punho pelo seu talento, muito aos moldes da própria Julliete Binoche, e outra, Chlöe Grace Moretz, na pele da atriz teen Jo-Ann Elis, no filme projetada como uma cria das superproduções hollywoodianas a quem Maria Enders despreza.

O fenômeno meteorológico conhecido como a serpente de Maloja dá título à obra e sugere o tema ao qual o filme se apega com mais força, o ato de estar acima das nuvens que invadem o corredor de montanhas próximo ao distrito de Maloja, nos Alpes suíços, em uma analogia sobre perceber a mudança do tempo e colocar-se acima das intempéries.

Um pouco aos moldes de “Persona”, a atriz e sua assistente, isolam-se em uma região inóspita para trabalharem o texto da peça e eventualmente as suas divergências de opinião. A assistente pessoal Valentine é interpretada por Kristen Stewart, uma atriz que na vida real é fruto dos besteirões norte-americanos como a personagem Jo-Ann Elis.

No entanto, as cenas de Binoche com Stewart são além de convincentes, espetaculares, levando o espectador a interpretações dúbias sobre a verdadeira relação entre as duas personagens, onde a ficção cinematográfica e a teatral misturam-se criando um universo metalinguístico primoroso. Vale lembrar que o verdadeiro conflito geracional se dá pelos diálogos das duas amigas que se contaminam e se modificam ao longo da trama.

Por fim, o que Olivier Assayas pretende mostrar com a obra “Acima das Nuvens” é que não somos seres presos ao presente. Uma mulher nos seus cinquenta anos é também a mocinha de vinte, porque o tempo não é substituível; ele se acumula.

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