A viagem

Desde as andanças de Heródoto até Alexander Super Tramp rumo ao Alaska, desde Kerouac com a procura da essência da vida em On the Road, até o isolamento de Tolstói e Rousseau. Em todos os tempos, a todo o momento e por qualquer motivo a estrada torna-se um objeto de fascínio no homem. Não por menos, o campo semântico que ela ilustra dá pano para muitas mangas.

Existem tipos e tipos de viagem, e a que me refiro não é bem aquela em que se compra um fluxograma bisonho em doze parcelas de sei lá quanto. Falo daqueles rompantes em que não existe nada além da vontade de sair de casa, não aos moldes da endectomania, a síndrome do viageiro, mais próxima do faniquito do que de uma vontade sincera. Trato daqueles momentos em que a disposição dos nervos sugere – o teu tempo é o agora.

Há duas semanas, alguma coisa dessa natureza me acometeu.

Independente do destino ou do tempo que ficaria fora, eu precisava sair. Achei uma promoção de avião, que logo se mostrou um engano, e continuei procurando na internet por um destino. Encontrei Minas Gerais. Comprei uma passagem de longas quatorze horas de ônibus, pensei em chamar os amigos, até calhou de comentar com um ou dois, mas no fim embarquei sozinha.

Fazia tempo que eu não viajava desacompanhada. Nos últimos tempos, andei carregando um pedaço do meu convívio para onde quer que eu fosse; as mesmas conversas com as mesmas pessoas, às vezes, um incremento aqui e ali, mas nada substancial, o que nunca foi uma situação ruim, longe disso, tudo sempre foi muito divertido e confortável ao lado dos amigos. No entanto, essa comodidade interferiu em outras coisas, coisas que eu costumava ver e ouvir ao sair de casa sem mais ninguém.

O inusitado, o desfalque, aquela sensação de caminhar por lugares novos sem nada além de si para chamar de familiar, eu estava sentindo saudade desse tipo de desamparo viageiro, e a boa da verdade é que eu havia me esquecido dele. Dessa última vez, não senti precisão de companhia em momento algum, pelo contrário, eu me senti absolutamente preenchida.

Mesmo assim, ao circular por uma Minas Gerais desconhecida, quis dar aos meus queridos um pouco do prazer que eu vivia: dividir o som do chinelo estralando na rua vazia, os pés cansados, o estômago vazio e sem fome, o desejo maluco de nunca voltar pelo mesmo caminho, apesar da costumeira desorientação. Eu fiquei repleta da lembrança-presença de quem eu tanto quero bem nessa vida. Nesses casos, o estrangeiro me funciona como uma espécie de termômetro do amor, principalmente quando o amor não se encontra. Além do mais, o quê de imprevisível, a disposição mais sincera na “ordem dos fatores”, ou seja, na desordem deles, no descontrole sobre o que pode vir a acontecer quando se está na estrada, acalma essa gana doentia que toma conta da gente o dia inteiro, a cobrança desmesurada de projetar e cumprir.

Conseguir captar o que a estrada diz e identificar o que nos projeta pra fora dessa nossa vida tão dia a dia vencida e planificada não são coisas entregues de mão beijada. É preciso um bom bocado de silêncio e uns tantos fins de tarde, pelo menos para mim. Lançar-se ao mundo é um ato muito particular de cada um.

Eu imagino, de maneira inocente, um suposto futuro em cada esquina desvendada, sempre prometendo regresso. Nunca voltei. Ainda assim, continuo a projetar possibilidades. Uma esperança que desenrosca essas correntes fictícias, essa imobilidade que sei lá quem disse ser a maneira certa de arquitetar uma existência. Viver necessitaria de instruções? Precisamos mesmo de um plano? Um porto seguro? Um lugar para fincar as raízes, pagar o IPTU? Pensemos bem, talvez não. Ainda assim, estamos na nossa grande maioria atolados em uma rotina insuficiente. Por quê?  É verdade que a pré-condição do impulso é o momento de repouso, e a estrada nunca é tão fresca quanto os primeiros minutos que nos colocamos sobre ela; no entanto, as pausas ficam mais demoradas a cada dia e logo já não se vai a lugar algum.

“Eu não compreendendo muito o mar, mas sei que as coisas são assim. E também sei como é importante na vida não necessariamente ser forte, mas sentir-se forte” – gosto muito desse pensamento, não sei de quem é, anotei mal-anotado e ficou por isso mesmo. Na maioria das vezes, troco a palavra mar por chão ou estrada e chego quase lá. Sempre quase, nunca lá.

Afinal, não se trata de realizações. Vale muito mais o movimento do que a chegada. Foi isso, foi bem isso o que a estrada me contou dessa vez.

Deixe uma resposta