A obsessão infinita de Yayoi Kusama

Uma barca com múltiplos membros fálicos, uma uva e um abacaxi. Caminhando no mar da morte (1981) é apenas uma das instalações da artista plástica Yayoi Kusama, que está em exposição na mostra Obsessão Infinita. Nascida em 1929, no Japão, a artista teve sua carreira internacionalizada após se mudar para Nova Iorque em 1957 e trabalhar com Donald Judd, Andy Warhol, Claes Oldenberg e Joseph Cornell. Uma mulher à frente de seu tempo e com sensibilidade aguçada, Kusama prossegue influenciando gerações com seus protestos intimistas em forma de arte.

Em entrevista à BBC, Kusama explica a arte do polka dots: “Pontos são o símbolo do mundo, do cosmos. A Terra é um ponto. A lua, o sol, as estrelas são todos feitos de pontos. Eu e você, nós somos pontos.” Para ela, o ser humano é apenas um ponto em meio ao universo, rodeado de agentes do medo. Ela não se vê como o centro, mas como uma só pessoa no mar de caos universal. Sua obra reflete obsessões e traumas de uma mulher aparentemente frágil. Contudo, extremamente forte ao ousar mostrar seus medos por meio da arte.

Nos Estados Unidos, protestou contra a Guerra do Vietnã, e ainda hoje tem como principal mote o pacifismo. Fez intervenções contra Wall Street em 1968, em uma época que muito se assemelha com essa.  As intervenções de Kusama eram protestos contínuos, contra a sociedade patriarcal e machista, que viveu no Japão da década de 1930, e a guerra.

A repetição de membros fálicos em suas obras pode ser entendida como a penetração de ideias, como a morte, o narcisismo e o consumo. O artista deixa o julgamento de sua arte para quem observa. Em Caminhando no mar da morte (1981), pode-se ver a sensual barca de Caronte, que na mitologia grega transporta os vivos para o outro lado. Os membros fálicos representam a penetração diária que a morte tem em nossas vidas. Morte e vida pertencem ao dia-a-dia, e são igualmente sensuais.

Além de artista plástica, Yayoi também escreve. Vive desde a década de 1970 em um manicômio no Japão, por escolha própria. Há alguns blocos, ela tem seu ateliê onde continua a reinventar o mundo que escolheu. Todos nós escolhemos uma realidade para acreditar, e bom seria se todos conseguissem expor pensamentos como ela.

Kusama, hoje com 85 anos, persiste sendo uma mulher avant garde, e as obsessões da humanidade serão sempre constantes e infinitas.

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