A obcena senhora

O Itaú Cultural exibe desde o dia 28 de fevereiro a mostra Ocupação Hilda Hilst. A exposição exibe a trajetória de um dos maiores nomes da literatura brasileira, percorrendo suas três frentes de produção – a poesia, o teatro e a prosa -, como também o processo de construção literária de Hilda, peculiar pela maneira como ela se dedicou exclusivamente para a produção de sua obra.

Hilda Hilst foi uma mulher da alta sociedade paulistana que circulava pelas patotas intelectuais e artísticas da época, sempre com seu cigarro em punho. Nessa época, produzia poesias as quais Alcir Pécora considera sua fase “parnasiana” e inicial.

Aos 30 anos, Hilda dá uma reviravolta em sua vida. Deixa São Paulo e constrói uma casa nos arredores de Campinas chamada Casa do Sol, lugar porto de muitos intelectuais da época e o lar de mais de 100 cachorros. Mudou radicalmente o estilo de vida para construir a sua obra literária e a escreveu com maestria.

Desde momento em diante, na Casa do Sol aos 30, acontece uma transformação sublime na produção literária de Hilda, deslocando-se para o teatro e, mais tarde, para a prosa. Mas não é adequado catalogar essa senhora em gavetas tão nítidas, uma vez que seus textos de prosa são repletos de imagens poéticas e diálogos, e seu teatro é considerado mais ensaístico do que narrativo.

Em algumas entrevistas, sempre polêmicas e ácidas, ela comentava sobre uma inquietação pessoal – questionava a ela própria se seria adequado despertar as pessoas do sono da normalidade, não conseguia mensurar se isso era correto ou não. Mas o fazia sempre, quase como quem não tem escolha.

Também reclamou muito sobre a capacidade de discernimento dos leitores brasileiros, nunca foi um estouro de venda por conta da complexidade de seus textos e considerava bestial escrever qualquer coisa simplória e de fácil assimilação. Alegava que a existência é complicada e não há jeito de produzir nada que não seja um esforço de elucidar o que é estar vivo. Uma tentativa dolorida, paradoxal e, claro que não poderia ser diferente, poética.

Para quem ainda não conhece a obra de Hilda Hilst, vale a pena conferir a exposição no Itaú Cultural até o dia 21 de abril, data de seu aniversário.

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