A modelo e sua cruz

No último domingo, a cidade de São Paulo recebeu mais uma edição da 19° Parada do Orgulho LGBT. Uma festa para bastante gente, mas para outros tantos, uma forma de protesto pelo respeito e direitos aos gays, lésbicas, bissexuais e transexuais. E como não poderia faltar uma boa polêmica, a bronca da vez foi contra a modelo Viviany Beleboni.

A modelo transexual desfilou com os peitos a mostra, recoberta de maquiagem imitando machucados e com os braços presos numa cruz, onde haveria o I.N.R.I, sigla em latim para Jesus de Nazareno rei dos judeus, escreveu-se “basta de homofobia”. Ilustrou-se a constante perseguição aos homossexuais, assim como faziam com o povo cristão na antiguidade. Vale lembrar, o Brasil tem uma das maiores taxas de homicídio contra a comunidade LGBT no mundo.

A reação da comunidade cristã e, ainda mais surpreendente, da comunidade LGBT foi de repúdio à cena. Muitos consideram o protesto como desrespeitoso com a fé católica e cristã.

As pessoas escolheram maltratá-la ao invés de ouvi-la, não apenas religiosos fanáticos e homofóbicos, como o próprio público homossexual. E isso foi justamente o que ela tentava dizer ao se colocar crucificada; apesar de não ter cometido crime algum, por ser transsexual, aos olhos dos romanos, merece a cruz.

Porém, o estranho sobre esse episódio é que Beleboni não foi original quanto à ousadia de usar a crucificação como forma de alegoria ou protesto. Definitivamente, foi a mais criticada. Mas não foi a primeira. Seria porque ela é transexual? Pelos seios a mostra? Nenhuma novidade no país da bunda. Então, talvez, procuravam apenas um único motivo para jogarem a primeira pedra. 

Ninguém achou ruim quando a revista Placar crucificou o jogador de futebol Neymar, nem faltaram elogios para o artista plástico cubano, Erik Ravelo, quando crucificou uma escultura de criança nas costas de um boneco em forma de bispo. Beleboni ousou ao usar uma simbologia cristã, ainda assim, a reação contra a modelo foi evidentemente desproporcional.

Admira-se a falta de interpretação do brasileiro, um sujeito (perdoem as generalizações) que não lê, não faz grandes análises políticas, não participa da vida pública e ainda julga mal. Era esperado, pelo menos da comunidade a qual a modelo protesta por direitos, o mínimo de discernimento entre alhos e bugalhos, mas os próprios oprimidos dividiram-se, tamanho o dano de uma sociedade absolutamente despreparada para a reflexão.

Deputados BBB já levantaram as tochas, projeto de lei contra a “cristofobia” apareceu na segunda-feira após a Parada, chamando protestos dessa natureza de crime hediondo. Porém, tortura seguida de morte, como acontece todos os dias no país, não falam.

A modelo Viviany Beleboni acertou ao escancarar uma realidade da comunidade LGBT, mas errou quando achou que as pessoas são capazes de refletirem diante de uma imagem forte. E mais, errou quando pensou que poderia figurar-se de vitima, o que realmente ela é, em um país que só procurava um bom motivo para crucificar o transexual, o gay, a lésbica, o travesti, o negro, o metroviário, o professor, etc etc… Passamos por momentos sombrios, sem dúvida.

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