A minha empregada

Machado de Assis, em 1881, publica Memórias Póstumas de Braz Cubas. No livro, há uma cena em que o pequeno Braz Cubas senta sobre seu escravo, de mesma idade, para brincar de cavalo. O capítulo mostra a hierarquia social massacrando o escravo da casa-grande, um brinquedo destituído de características humanas. A maneira como a sociedade brasileira, após cem anos, trata empregadas domésticas tem pouca diferença do trato dado pelo menino Braz Cubas. O twitter @aminhaempregada, por meio de frases retiradas de outros perfis, chegou para escancarar a realidade de domésticas que são entendidas como objetos que pertencem ao dono. A crueldade das palavras na rede social em muito se assemelha ao menino de elite montado sobre seu empregado.

O twitter criado por um jovem de 33 anos que não quis se identificar objetiva denunciar a maneira que patrões tratam suas empregadas domésticas. As comparações são pejorativas. Empregada doméstica, para muitos jovens, significa ser feia e burra, e muitos transparecem a sensação de que o empregado lhes pertence. Frases como essa são apenas um exemplo: “A minha maldita empregada nordestina quebrou meu amplificador de 950 reais. Amanhã, eu vou na casa dela cobrar e foda-se.” Em apenas duas frases, há desrespeito completo contra uma classe trabalhadora. O patrão não apenas acredita que poderá cobrar algo, como também, que pode ir até a casa do empregado invadir sua privacidade.

No capítulo XI, o Menino é Pai do Homem, Machado escreve: “Prudêncio, um moleque de casa, era o meu cavalo de todos os dias; punha as mãos no chão, recebia um cordel nos queixos, à guisa de freio, eu trepava-lhe o dorso…”, e ainda, “…porque meu pai tinha-me em grande admiração, e se às vezes me repreendia, à vista de gente, fazia-o por simples formalidade: em particular dava-me beijos.” A frase machadiana continua atual. Não é diferente do século XIX o trato dado a empregados de dentro dos lares brasileiros. Herança da sociedade escravocrata, a relação patrão e empregado continua a mesma. Por gerações, filhos herdam dos pais o sentimento de possuir o que se paga, independentes de serem seres inanimados ou humanos. Quase uma releitura do sistema extinto em 1888.

No Brasil, é comum haver empregadas domésticas que dormem no serviço, em quartos insalubres, no fundo de mansões. Esse fato é a tradução do sentimento paternalista de fazer crer que a empregada doméstica faz parte da família sem, contudo, receber igual tratamento. É no interior das casas brasileiras que o domínio das diferenças de classes faz-se mais rígido. Outro hábito, bastante comum, é o de empregados sentarem-se à mesa apenas após o patrão ter comido, de forma a, de certa maneira, comer os restos que sobraram da refeição. A “secretária do lar” é tratada com vínculo afetivo de submissão ao patrão, nunca como filho ou irmão, mas como um acessório querido e indispensável.

Em 2013, leis trabalhistas foram criadas para regulamentar o serviço doméstico, igualando-o a outros serviços prestados. O que significa que até então o serviço doméstico nem pela lei era entendido como prestação de serviço, sem ter garantias como jornada máxima semanal, hora extra e adicional noturno. De fato, a empregada doméstica era o continuísmo das relações escravo e patrão de pouco mais de cem anos atrás. As reclamações de “patroas” são frequentes nas ruas e em rodas de amigos. Queixam-se da dificuldade de encontrar alguém “de confiança” e do aumento salarial e encargo trabalhista de se ter uma empregada doméstica atualmente. Há pouco entendimento do que significa direitos.

O Brasil ainda conserva abusos de outros séculos, principalmente quando são altos os muros que escondem esse tratamento. O twitter sinaliza uma mudança em entender os preconceitos brasileiros diários. Aponta-os e, ao fazer isso, sugere reflexão sobre o problema. Apesar de mudanças de lei e pensamento serem tardias, houve um ganho para uma classe trabalhadora importante, que merece ser de fato respeitada e compreendida como igual. O médico, engenheiro, banqueiro e empregados domésticos são profissionais e devem ser tratados como tal. A mudança deve surgir de dentro dos lares brasileiros, para que seja possível o fim de preconceitos geracionais.

 

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