A Manoel de Barros

Pensei no que você disse sobre a desutilidade. O trabalho anda a me emburrecer. Já tem tempo que não prendo vento. Ando falando em silêncio.

Desde pequena, tem gente ao meu redor a desacreditar em mim, dizem que ando a inventar, mas não entendem que tudo que não invento é falso.

Em menina, também andava a cantar sozinha e criar letras de música que não existiam, ainda faço isso. Acontece que não consigo cantar a mesma letra dos outros. Chamam-me imbecil quando fujo um bucadinho de mim. Fiquei emocionada. Sou fraca para elogios.

E sempre gostei do vazio e teimo a perder. Gosto também de quem perde. O perdedor e o meio vazio sempre me interessam, me desinteressa o ganhador, não consigo achar ilustre. Aprendi a gostar de mim assim: amando os defeitos de tudo. Que bom é não prestar para nada. Deveriam criar máquinas para desprestar. Eu compraria uma. Talvez faça uma quando parar de emburrecer.

Tendo para a desobediência, mas ninguém gosta disso, aí criei uma porção de regras para me encaixar no que queriam. Marcava na mão as tarefas, tinha horários. Até comprei uma agenda. Mas de vez em quando escapava de tudo isso, e desobedecia pra poder obedecer. Hoje penso que não presta essa tal de obediência. Como já te disse, me anda a emburrecer. Ando por aí transgredindo, pra ver se trans alguma coisa nessa minha vida.

Eu não sou da cidade, sou do interior da minha cabeça. Lá fico muito tempo e me divirto a tentar falar diretamente o que vem da caixa do pensar. Rio alto quando não entendem. Gosto de quem muda os assuntos, de quem não tem sequência, mostra que a pessoa é de verdade. Vive a se por do lado do avesso. Prefiro o avesso. O certo é tão feio, acho que quem inventou isso queria fazer do feio bonito, talvez dê para desfazê-lo de forma a rechear o mundo de passarinhos.

A senhora disse que precisa fechar as janelas, para os passarinhos não entrarem. Vou tirar as janelas de lá. Tive um casal de periquitos uma vez. Eles fugiram da gaiola logo no primeiro dia, ninguém sabe como. Eu, minha mãe, meu pai e minha irmã ficamos maravilhados com aquilo. A gente não era de prender passarinho. Que mania essa de de vez em quando dar um cacoete do todo mundo. A gente é a gente, não é todo mundo. A gaiola virou máquina de fazer borboleta.

Às vezes, me dá uma vontade de começar a escrever uma história, e só parar quando me esgotar. Mas não tomo coragem. Teimo em me emburrecer. Vou voltar a ser inútil para prestar a sonhar.

E o comunismo dela? Está quarando na beira do rio entre as capivaras. Dizem-me que o comunismo não existe. É por isso que gosto tanto dele assim.

 

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