A humanidade se quebra na costa

Uma criança síria de três anos de idade, identificada como Aylan Kurdi, foi resgatada sem vida na praia de Bodrum, Turquia, após o naufrágio de duas embarcações de imigrantes. O irmão de Aylan de cinco anos chamado Galip também faleceu no acidente, mas não aparece na fotografia, assim como milhares de outras crianças mortas, as quais nem tomamos conhecimento do nome.

Poucos dias antes, 71 refugiados foram encontrados sem vida dentro de um caminhão frigorífico em uma estrada na região leste da Áustria. A procedência daquelas pessoas não foi confirmada; eram 59 homens, 8 mulheres e 4 crianças. A vítima mais nova tinha apenas dois anos de vida, um ano mais jovem que Aylan Kurdi, e também não apareceu na foto.

De acordo com a Unicef, Fundo das Nações Unidas para a Criança, mulheres e crianças são um terço dos refugiados procurando abrigo na Europa. Fala-se na pior crise de refugiados desde a Segunda Guerra Mundial. Segundo a Anistia Internacional e a Comissão Europeia, cerca de 350 mil imigrantes atravessaram o Mediterrâneo desde janeiro deste ano, e desses, mais de dois mil morreram na travessia.

Os ministros do Interior e da Justiça da União Europeia vão se reunir no próximo dia 14 para avaliarem a situação e tomarem medidas de curto e longo prazo em vista à retenção ou o auxílio dos imigrantes. No entanto, pouco é esperado desse encontro. Na cúpula de junho, acordaram acolher voluntariamente 32 mil pessoas procedentes de Síria e Eritreia, ao invés dos 40 mil propostos pela Comissão Europeia em maio, os países não estão dispostos a receberem de bom grado essa população carente.

Apesar de alemães estarem abrigando estrangeiros em suas casas, e a igreja católica se articular no resgate dessas pessoas, ações dessa natureza são apenas medidas paliativas para os recém-chegados, o bom samaritanismo é bem-vindo, mas não pode ser compreendido como política imigrante, nem como solução. Enquanto isso, redes sociais turcas circulam a hashtag kiyiyavuraninsalik, que significa: a humanidade se quebra na costa.

Existem lugares quase perfeitos no mundo e outros inabitáveis, a ponto de milhares apostarem todas as economias e a própria vida por uma chance de quase morte. Não se trata de resgatar o homem da praia ou do mar, que também não se faz com o devido respeito pela humanidade, trata-se, sobretudo, de dar condição a todos para que não queiram ou precisem chegar até a fronteira.

A pergunta que os governantes europeus devem fazer é também nossa, porque o sírio de lá é o boliviano daqui; não estão na fotografia, não noticiam nos jornais e não fizeram a relação de uma coisa com outra, ainda assim um pouco de discernimento dá conta de relacionar os oprimidos daqui com os de outros continentes.

Pela ordem lógica da reflexão, é preciso primeiro formular a pergunta correta para então encontrar uma resposta ou solução, e eu pergunto a vocês: estamos dispostos a abrir mão do excesso pela miséria do outro? Partimos daí.

“acontece isto muitas vezes não fazermos as perguntas porque ainda não estávamos preparados para ouvir a resposta, ou por termos, simplesmente, medo delas”

José Saramago

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