A fera atrás da porta de Fernando Coimbra

Fernando Coimbra deixa os curtas e estreia muito bem no gênero longa-metragem com a obra O lobo atrás da porta, uma readaptação do famoso caso policial dos anos 1960, onde a amante se envolve com a família do marido infiel para vingar-se dele, os nomes dos personagens são diferentes, mas o caso é o mesmo.

Neide Maria Lopes, apelidada pelos jornais como “a fera da penha” , foi condenada a 33 anos pelo sequestro e assassinato de Tania Maria Coelho Araújo, a filha de apenas 4 anos de idade do casal. O caso é considerado um dos mais populares na história do Rio de Janeiro e gerou uma série de reportagens, livros e filmes.

No entanto, o que poderia ser mais do mesmo, surpreende. O diretor e também roteirista, Fernando Coimbra, desenrola a trama por meio dos depoimentos dos pais da criança, Fabíula Nascimento e Milhem Cortaz, nos papéis de Silvia e Bernardo, e a confissão de Rosa – a amante vingativa brilhantemente interpretada por Leandra Leal.

No início, o espectador fica confuso sobre quem será a fera da história, devido ao feliz contraste entre a fisionomia angelical de Leandra Leal e os traços fortes de Milhem Cortaz, interpretando o papel de Bernardo, o marido cafajeste, agressivo e acuado.

E talvez fiquemos ainda mais confusos, em nosso senso de justiça, quando Rosa conta sua versão da história e, sem arrependimentos, assume as responsabilidades de seus atos. O que leva uma mulher à barbaridade de assassinar uma criança? Houve outras mortes? Não é possível ter certeza, nem no filme, nem na história real.

Uma característica de cena interessante usada pelo diretor de fotografia, Lula Carvalho, são os elementos que se colocam entre os personagens e a câmera: um espelho refletindo o casal, a parede de grade e a cortina de contas do apartamento do amigo; pequenos detalhes que sugerem um filtro, algo colocado entre o acontecido e aquilo que tomamos conhecimento.

O lobo atrás da porta é um thriller perturbante por sua natureza ordinária, comum. Sem juízos de valor, o filme mostra o drama das relações humanas e a barbaridade vinda dos corriqueiros erros mundanos.

Não há provas de que as versão da assassina  seja verdadeira, o mais verídico é que nunca saberemos; uma coisa é certa, uma criança morreu. E foi pelas mãos de Neide Maria Lopez.

Ficha técnica

Direção: Fernando Coimbra.

Roteiro: Fernando Coimbra.

Direção de Fotografia: Lula Carvalho.

Montagem: Karen Akerman.

Direção de Arte: Tiago Marques.

Trilha Sonora: Ricardo Cutz.

Duração: 101 min.

País: Brasil.

Em cartaz:  Reserva Cultural 

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