A devida atenção

Não me lembro de pensar em solidão quando era menina, havia dias em que ficava sozinha, é verdade, mas não existia solidão em si. Vai ver já frequentasse a casa e era eu que ainda não a conhecia pelo nome.

Talvez a solidão seja um sintoma do tempo, suaves caminhos de pele amassada que, quando jovens, só temos na palma da mão, e só depois marcam todas as partes do corpo que se mexeram enquanto sentíamos.

Eu corria com o lápis o tracejado do zigue-zague de maneira mais demorada que o resto da turma e, quando tocava o sinal, não podia sair da sala. Aquilo de ficar para trás me dava uma agonia dos diabos. Hoje, chamo a inquietação de ansiedade. Menos um nome aos bois.

Essas aflições duravam muito pouco. Logo corria pelo quintal, brigava com a irmã, procurava o esconderijo do bichano e abria um sorriso pelas coisas mais triviais do mundo, fosse uma nuvem com cara de alguma coisa ou um caminho de formigas interrompido pelo pé. Não havia responsabilidades, vulgo aquela corda que atravessa os dias e sem ela não chegamos ao cume.

A infância é um pedaço da vida em que estamos colados ao presente com tamanha força que parece que será sempre assim, nada à frente, ninguém para trás. Teve choro, é claro que teve, mas as dores eram mais físicas que sentimentais. Portanto desconfio que, lá atrás, a solidão não me convivia.

Colocando dessa forma, até parece que entendo o sentimento de estar só como algo ruim, o que é justamente o que não acredito. Penso que somente quando estamos sozinhos é que conseguimos colocar a devida atenção em nós mesmos, conseguimos encontrar novas estradas entre a poeira já levantada do caminho comum.

Veja bem, uma solidão que se preze nunca está no mesmo momento do mundo. E é por isso que talvez seja tão endemoniada pelos professores da felicidade, querem homens antenados com o tempo e não gauches da vida. Pois eu fico com Drummond.

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