O mestre da Folia e o Brasil que vai-se embora

Pedro Victor dos Santos recebeu nome de santo em agradecimento a São Pedro. O pai devoto pediu por um menino para ajudá-lo no trabalho da roça e foi agraciado. Fez festa por 29 anos, no dia 29 de junho, dia de São Pedro. E pedrinho, desde que nasceu até os 30 anos de idade, nunca separou as festas e a música de sua fé. Pedrinho da Barra Seca, como é conhecido, é um dos poucos e últimos mestres da Folia do Divino.

Do início de abril até o mês de julho, a cidade de Ubatuba e as comunidades do entorno festejam o Pentecostes ou a Folia do Divino há mais de 300 anos. Uma comemoração católica, vinda de Portugal, adaptada aos costumes dos caiçaras e transformada em uma das manifestações culturais mais antigas e importantes da região, mas que corre o risco de desaparecer.

A festa do Divino, de acordo com a tradição, deve acontecer 50 dias depois da páscoa, no dia do Pentecostes. Porém, por causa do dia de São Pedro, no dia 29 de junho, e da Festa da Taínha, começo de julho, a comemoração do Divino acontece mais tarde em Ubatuba do que no resto do país.

Antigamente, as folias eram organizadas por um sujeito chamado festeiro. Esse homem era o encarregado de pedir ao padre donativos para a organização das festas religiosas. Hoje, já não existe mais essa figura, e Pedrinho conta que o interesse do povo desanima: “A igreja evangélica acha que isso aí não é de Deus. Gozado, eles falam tanto de espírito santo, como que não é de Deus?” De acordo com o mestre, quem segura a “peteca” da Folia do Divino e de outras festas populares é o pessoal da cultura, não mais as igrejas.

O mestre teve o primeiro contato com a Folia do Divino dentro da própria casa quando criança. Seu pai tinha o costume de dar pouso para os foliões, os músicos, e todos os anos eles tocavam na sua casa. Mais tarde, a mãe de Pedro fez uma promessa para o Divino Espírito Santo pela constante garganta inflamada do menino, e ele saiu junto com os músicos, para dentro das trilhas até as comunidades, por quase 4 meses, pagando a promessa feita pela mãe. Nessas idas e vindas, de tanto olhar e cantar com os foliões, Pedro aprendeu a versar rápido e tocar desde caixa, pandeiro e rabeca até viola.

Mais tarde, seu pai adoeceu da coluna e Pedro precisou procurar trabalho na cidade. Deixou a Folia de lado, mas não abandonou a música. Entrou para a Lira Municipal, conhecida também como “a furiosa”, e continuou tocando nos coretos da cidade e quando chamavam para algum baile. Mais tarde voltou para a folia e, há 8 anos, assumiu a responsabilidade de mestre a pedido de um amigo. Sabia que, se não fosse por ele, talvez já não houvesse a cantoria em Ubatuba. Existem bairros que não recebem os músicos faz 30 anos.

Pedro conta que ainda tem muito para olhar e aprender, mas, faz algum tempo, procura por um sucessor. Ele se preocupa porque quase não há gente nova disposta a fazer a folia: “Os jovens tem vergonha ou não tem interesse” – lamenta o violeiro. Conta que, para tornar-se um mestre, é preciso saber tocar todos os instrumentos da folia e ser bom na rima de improviso.“Nunca tinham me visto tocar, aí eles não acreditaram em mim não. Daí eu disse, pode deixar que a folia não acaba. Não comigo”.

Por compromissos de homens feito Pedrinho da Barra, ainda conservamos um pouco do Brasil original. Aquele passado de pai para filho, de casa em casa, de rima em rima. Mas que aos poucos, se não cuidarmos bem, envelhece, cai no esquecimento. Vai-se embora.

Deixe uma resposta