A cidade feita de pessoas

Grande parte das cidades médias e grandes no Brasil foram feitas para produtos de consumo. As cidades passaram a ser centro de demanda de bens de capitais e foram construídas ao redor disso. O que se vê são ruas para carros e a inexistência de lugares públicos gratuitos e bem conservados – a praça urbana é o shopping, local mais habitado e desejado no momento de folga. Sem sol, sombra e água fresca, o cidadão perde a identidade e corre o risco de se tornar uma parede de concreto no caos.

A cidade de São Paulo, como tantas outras, é exemplo de que o verdadeiro eleitor é o carro. Rios foram canalizados e soterrados para que o automóvel pudesse passar. A poluição acarreta em milhares de mortes e problemas respiratórios. De acordo com o Instituto Saúde e Sustentabilidade, em 2011, a poluição atmosférica foi responsável pela morte de 2 milhões de pessoas no mundo.

O mesmo ocorre com o mercado imobiliário que avança sobre mananciais, praças e áreas verdes. As moradias, muitas vezes, não possuem condições mínimas de serem construídas, com falta de esgoto e água nos piores dos casos, consumindo a cidade e jogando seus detritos nela, de maneira individual e pensando o meio urbano como um oásis de formas não humanas.

A questão é que a cidade foi feita por pessoas, mas não foi pensada para elas, e sim para os bens que geram lucro para parte dela. O meio urbano tornou-se palco da concentração populacional autoexcludente, a qual se fecha dentro de seus bens de capital. Condomínios, carros, apartamentos, são todas mercadorias que passaram a representar o homem de maneira tão profunda, que o tornou invisível.

As cidades precisam se recuperar dessas escolhas cegas e não participativas do passado, pois representam a moradia de mais de 50% da população mundial, com aumento para 66% até 2050, de acordo com dados da ONU. Nessa década, o tema da ocupação da cidade por pessoas surgiu com força, e pensá-las tornou-se obrigação de todas as esferas de governo, além de preocupação dos próprios urbanoides, que começaram a reclamar sua invisibilidade.

Desse texto repleto de negativas, surge uma saída, quando se percebe a autora escrevendo sobre o tema e a população discutindo seu espaço. O povo saiu pra rua e sentou onde antes ficava o carro, e conversou com o vizinho e tomou vinho com o amigo ao ar livre, e se esborrachou na ciclovia que acabava ali sem avisar. E assim o povo ficou vivo de novo, não da maneira ideal, não no lugar perfeito; mas de um tempo pra cá tem perdido cada vez mais a camuflagem de concreto que carregava havia tanto tempo.

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