A cega justiça dos privilegiados

A forma com que o juiz Sérgio Moro tem conduzido a operação Lava Jato, que investiga o governo federal, tem causado dúvidas quanto à sua legalidade. O povo brasileiro, sedento por heróis, devido à sua herança patriarcal, já adotou Moro como o salvador da pátria. O fenômeno de heroicização de personagens públicos no país apenas reflete quão conservador ainda é o brasileiro.

Poucas horas antes do anúncio no Diário Oficial da União sobre a posse de Lula como ministro da Casa Civil, uma escuta telefônica entre Dilma e o ex-presidente foi divulgada pela emissora Globo. O juiz Sergio Moro grampeou o telefone de Lula e retirou o sigilo de uma conversa dele com a presidenta da república, a qual não pode por lei ter seu telefone grampeado e muito menos suas ligações divulgadas. Legalistas sugerem que, como o grampo era no telefonema de Lula, a ação investigativa é legal; porém, retirar o sigilo para a mídia realizar suas diversas interpretações parece um tanto oportunista.

Sérgio Moro tornou-se herói para alguns. A sociedade conservadora encontrou a oportunidade de dizer o que pensa e mostrar em que acredita, demonstrando um infeliz retrato do Brasil patriarcal. O homem cordial brasileiro necessita de heróis que pregam a ordem e o progresso, lema positivista e arcaico que a bandeira nacional é fadada a carregar.

A questão é que todas essas prisões não vão mudar o Brasil, porque a desigualdade, que faz com que poucos tenham muito, e muitos não tenham o que comer, é um problema estrutural causado pela divisão de classes no país. É no mínimo confuso ver pessoas de classe média alta e ricas vociferando por justiça, ao mesmo tempo em que contribuem para uma situação histórica de constante desigualdade de oportunidades.

Políticas assistencialistas praticadas pelas classes sociais mais altas não modificam a estrutura desigual. Pagar imposto mais altos sobre bens de herança e dar espaço para que outras famílias tenham as mesmas oportunidades que o avô e ou o pai rico proporcionam é o que irá mudar o país.

Mas não há espaço para uma discussão mais profunda, porque isso implicaria na realização do autoquestionamento e da perda de privilégios, os quais seriam muito perversos para os que vestem orgulhosos a camisa da ordem e do progresso – ordem essa necessária para que não haja mudanças sociais reais.

A corrupção precisa acabar, não há dúvida, mas esse pedido não será suficiente se for feito com o objetivo de derrubar um governo democrático. Se provado abusos de poder ou corrupção por parte da presidenta, ela será julgada pela lei. Um povo que pede a saída de um presidente eleito democraticamente não pode ser levado a sério em hipótese alguma, menos ainda, quando não pede e nunca pediu pelo fim de seus próprios privilégios.

Sérgio Moro é um habilidoso juiz, mas não pode ser entendido como herói em um país que custa a ser republicano, sempre em busca de um rei. Fazê-lo herói serve apenas para demostrar quão longe algumas pessoas estão de entender que o único herói é o trabalhador invisível, que luta diariamente por oportunidade. O fim do governo petista não mudará o Brasil, enquanto esse não for o real interesse da maioria dos que clamam por justiça em seus uniformes verde e amarelo.

 

 

 

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