A bunda política da mulher do ano

A nova música, Vai Malandra, da cantora Anitta bate o recorde brasileiro de visualizações no Youtube nos primeiros três dias após o lançamento, e o hit deu o que falar nas redes. Há os que acusam a cantora de se rebaixar à posição de mulher objeto e outros que louvam a atitude da artista de ter subido nas tamancas de vidro e abusado do biquíni de fita isolante. Feminista ou objeto de consumo, quem é essa Anitta? E o que ela quer com a sua bunda?

O vídeo já começa com oito segundos de pura bunda (sem filtros) de shortinhos curto subindo na garupa de uma motocicleta, placa ANT 1256, ANT, de Anitta, claro, e 1256 em referência ao projeto de lei que tenta criminalizar o baile funk no Congresso Nacional. De cara, já vemos a bunda da Anitta rebolando cheia de atitude, com suas cicatrizes e celulites, entrando numa comunidade igual àquela em que ela saiu.

Para alguns, o figurino funkeira na musa latina foi de mau gosto, e a bunda em close não passa de uma estratégia para vender o peixe no mercado gringo com o estereotipo desejado e esperado de uma brasileira. Por outro lado, boa parte dos fãs da cantora deliraram com aquele momento bunda como ela é. Ao contrário do efeito causado por Nicki Minaj, quando mostrou a bunda com “imperfeições”. Em Vai Malandra, a bunda de Anitta repercutiu como uma aproximação da diva com todas as mulheres. Foi o manifesto da bunda real mostrando ao show business que um corpo sem retoques tem sim beleza e o seu lugar nos holofotes.

Por falar em corpos, dos muitos que se vê em Vai Malandra, dois modelos masculinos merecem destaque, o que é novidade no funk também. As atrações formam: o bombeiro Rodrigo Motta, que aparece de sunga numa tomada calcanhar/pescoço jogando bronzeador nas meninas da laje, gesto que também deu no que falar pela dúbia interpretação, e o modelo Pietro Baltazar, moreno de cabelo oxigenado conhecido como o Justin Bieber do Vidigal. Portanto, sim, há muita gente em pouco pano, ou fita, sensualizando no vídeo e não! Não foram só as mulheres dessa vez.

É claro que a artista vende a própria imagem sensualizada para mercantilizar seu produto musical, mas isso é realmente um problema? Ao contrário de um programa televisivo que filma bundas dançantes em close para aumentar o ibope de apresentadores homens ultrapassados, Anitta explora seu corpo a favor de si. Seria coerente encaixá-la como uma mulher objeto se é ela mesma a protagonista do seu show? Quem recolhe os louros do seu corpo se não ela?

Foi quase ontem que o movimento Marcha das Vadias saiu às ruas para mostrar que uma mulher pode e deve se vestir do jeito que bem entender, e os trajes e o comportamento dessa pessoa não deixam alguém menos merecedor de respeito e segurança. Ou o caso é outro, o incômodo estaria na “cultura da favela” roubando o protagonismo da cena cultural brasileira?

Desconsiderando a parte em inglês para inglês ver do vídeo, está tudo muito coerente e emancipador e culturalmente rico, porém… não há como escapar do ranço de Terry Richardson.

O agressor

Vivemos um momento de sororidade entre as mulheres, e milhares de casos de abusos sexuais estão sendo revelados graças a essa união. Terry Richardson fez sua fama em editorais controversos e provocantes, mas sua conduta inadequada com as mulheres com que trabalhou acabou manchando a carreira desse profissional.

Marcas como Diesel, Bulgari e Valentino cancelaram os materiais produzidos com ele e cortaram as relações contratuais depois das acusações virem à tona. A mais recente delas saiu enquanto o clipe estava em processo de filmagem. Anitta pronunciou-se sobre o caso.

Ela disse que tomou a decisão de continuar a produção porque levou em consideração todas as outras pessoas envolvidas nesse trabalho, muitas delas, inclusive, da comunidade do Vidigal.

Porém, falta para a cantora compreender que suas escolhas, agora, sejam elas certas ou erradas, são tendências de comportamento em escala mundial. Se Anitta quer ser essa figura feminina brasileira que empodera e defende mulheres, não dá para fazer parceria com agressor e tentar ver o lado positivo da situação, principalmente neste caso, onde um agressor passa incólume por trás do sucesso de uma mulher.

Nós, como consumidores dessa cultura e críticos, não podemos deixar de apontar esse tropeção. Quem sabe assim, a cantora pondere melhor suas futuras decisões baseando-se na importância política da sua figura. Anitta é realmente a brasileira do ano de 2017, mas será que ela tem consciência dessa responsabilidade?

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