A arte em Truffaut

Ao entrar na exposição Truffaut: um cineasta apaixonado, no Museu da Imagem e do Som de São Paulo (MIS), já é possível sentir-se dentro de um dos filmes do cineasta. No teto, um rolo de filme maximizado corresponde a cenas de suas principais películas. Televisores espalhados passam trechos da obra de Truffaut e momentos de sua vida contados pelo próprio artista e amigos. Há também objetos e cenários interativos. Toda essa mistura faz dessa exposição passagem obrigatória para quem estiver na terra da garoa.

Truffaut nasceu em 1932 em Paris e teve uma infância difícil. Seus pais, sem condição de cria-lo, deixaram-no com a avó materna até poder retornar ao convívio da mãe e do padrasto. Teve uma adolescência rebelde, retratada no filme Os incompreendidos (1959) na tradução para o português de Les quatre cents coups.

Esse filme é o primeiro de cinco sobre a vida de Antoine Doinel, o alter ego do cineasta. Os filmes mostram Antoine crescendo com seus medos e amores. Em todos eles, Antoine é interpretado pelo mesmo ator, Jean-Pierre Léaud. A saga de Antoine impressiona por ser único em ter sequência rara com o mesmo intérprete em diferentes idades. O filme não mostra apenas a mudança de Antoine, mas também a da arte de Truffaut. O conjunto de películas mostra as mudanças de Truffaut desde 1959 até o decorrer de 20 anos.

Outro filme interessante é Jules et Jim (1962), que mostra a paixão de dois homens pela mesma mulher. Nesse caso, o relacionamento está acima de padrões morais de triângulos amorosos. O filme torna o sentimento mais latente do que o próprio relacionamento a três. De acordo com Truffaut: “… era justamente isso que me agradava; fazer um filme subversivo com toda doçura, sem agredir o público, mas, ao contrário, envolvendo-o com ternura, forçando-o a aceitar, na tela, certas situações que teria condenado na vida”.

Truffaut foi um expoente da nouvelle vague, juntamente com Françoise Giroud, Alain Resnais e Jean-Luc Godard. Característica dessa vertente, que surge após a Segunda Guerra Mundial, é o amoralismo e a maior importância dada à imagem e ao diretor. Eles criticam os clichês dos filmes feitos até então e focam mais nos personagens e sua psicologia, como no filme Jules et Jim.

A adoração pelo diretor norte-americano Alfred Hitchcock fez com que Truffaut realizasse uma série de entrevistas durante dois anos com o diretor, que revela os segredos por trás de cada filme do gênio do suspense. Em breve, chegará ao Brasil, o documentário de Kent Jones, sobre as horas compartilhadas entre Truffaut e Hitchcock.

Truffaut faleceu ainda jovem, com 52 anos. Sua cinematografia permite que o diretor continue vivo em forma de película. E a exposição no MIS, nesse sentido, cumpre o dever de manter a memória do cineasta viva.

Deixe uma resposta