A arte de ver com olhos livres

Não há muito sobre paisagem em São Paulo. Janela afora, observamos uma imensidão de concreto com prédios e mais prédios, carros, ruas e viadutos. Sem dúvida, essa cidade é cinza e não por coincidência, há quem queira mudar o tom. Com tantos muros, a cidade acabou por torna-se um museu a céu aberto para os admiradores do graffiti e da pichação. Um museu livre de burocracias e que se refaz a cada dia. São milhares de manifestações artísticas que compartilham e renovam a rua. E apesar do sucesso internacional de alguns nomes brasileiros no circuito, o Brasil ainda vira as costas e renega as mensagens que seus muros, ilegalmente, sugerem.

Um erro comum é entender o graffiti e a pichação como uma coisa só e taxar um de arte e outro de vandalismo. Trata-se de duas formas de expressão distintas, e ambas devem ser consideradas tanto uma ferramenta de contestação quanto uma representação artística.

O ato de pichar está associado à vontade de marcar o espaço com o nome do pichador. Esse sujeito está mais interessado em criar a sua caligrafia, que nem sempre é compreendida por outros, e deixar sua marca em um determinado lugar. Ele reivindica a sua presença por meio de sua assinatura.

Já o graffiti reflete o particular de quem o pratica. As pinturas mostram o repertório artístico e emocional daquele que fez o desenho. Há também a preocupação em passar uma mensagem ao público. Essa pessoa escolhe um apelido para assinar o seu trabalho.

Apesar das diferenças, essas duas práticas têm algo em comum – a vontade de se fazer ouvir. Juntas desenvolvem um universo de representação artística e social em um espaço muitas vezes privado de significância. Daí a chave da questão – as autoridades rejeitam o potencial transformador dessas atividades e preocupam-se exclusivamente em recobrir de cinza aquilo que foi escrito ou desenhado.

Se a arte de rua não tem espaço na própria rua, onde é o seu lugar? Ironicamente, não haveria pichação e graffiti se não houvesse muro. Não haveria necessidade de colorir o que já fosse colorido, nem a urgência de se representar num espaço que não existisse excluídos.

É hora de ver com olhos mais livres, como já diria Oswald, enxergar além do concreto e admirar aquilo de abstrato que a cidade nos oferece.

* esse texto foi construído com a colaboração do artista e educador Dingos Del Barco

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